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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Jogo de ideias com Luiz Ruffato



O escritor e jornalista Luiz Ruffato inicia seu depoimento declarando-se um escritor que se posiciona, brincando com o fato de participar do programa usando uma camisa do Flamengo. Lê trecho do livro "O profundo silêncio das manhãs de domingo", explicando antes que quem decide a história é o personagem, ele é apenas o narrador. A entrevista conta com a participação do escritor Flávio Carneiro.

Entrevista concedida ao jornalista Claudiney Ferreira, para o programa Jogo de Ideias, gravado em agosto de 2010, na Casa da Cultura, em Paraty/RJ, durante a 8ª Feira Literária de Paraty (FLIP).

Saiba mais sobre Luiz Ruffato na Enciclopédia Itaú Cultural de Literatura Brasileira:
http://www.itaucultural.org.br/enciclopedias/literatura?id=8884

Veja a Parte 2: http://youtu.be/9eQ1DSBGwo0
Veja a Parte 3: http://youtu.be/lYcsUbj0UG4
Veja a Parte 4: http://youtu.be/g4s-3UrnonU
Veja a Parte 5: http://youtu.be/nqHQIUPA4fs
Veja a Parte 6: http://youtu.be/yXn-Jaz1zSE
Veja a Parte 7: http://youtu.be/73I60YLYO3M

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Os verbos auxiliares do coração - Peter Esterházy

Dia 6 de outubro, receberemos o Prof. Dr. Biagio D´Ângelo que nos falará a respeito de Os verbos auxiliares do coração, de Peter Esterházy.
Para saber um pouco mais sobre a obra, que tal ler a resenha de Tiago Pinheiro para o site Meia Palavra?

Peter Esterházy foi um dos nomes mais propagados pela divulgação da FLIP deste ano. Tenho a impressão de que também foi um dos mais entrevistados e talvez o que tenha concedido as declarações mais interessantes (ao lado de valter hugo mãe). Sim, a literatura húngara entrou no circuito brasileiro, diziam alguns slogans. Mesmo? Não, não: um escritor não faz uma literatura… E a escolha da publicação deOs Verbos Auxiliares do Coração torna essa ignorância ainda mais espetacular e até cômica, já que o livro faz citações sistemáticas a um grande número de autores pertencentes à língua húngara, nomes que nem de longe passam por nosso repertório: Péter Hajnóczy, Gyula Illyés, Lászo Komár, Ivan Mándy, Géza Ottlik, Sándor Weöres, etc. Mas isso não é exatamente um impedimento; é sim um convite. Um convite para conhecermos a língua materna de outro. Não à toa o subtítulo do livro é “Introdução à Literatura”. Infelizmente, esse convite é para um funeral: justamente daquela que ofereceu essa língua ao escritor em questão.

domingo, 26 de agosto de 2012

Aperitivo para o dia 1 de setembro


Colaboração de Paulo Kralik Angelini

Obra que conjuga sucesso de vendas e de crítica, obtendo prêmios importantes como o Pulitzer de 2011 e o National Book Critics Circle Award, além de Los Angeles Times Book Prize, winner (Fiction, 2010), PEN/Faulkner Award, finalist (2011), Publishers Weekly’s Top 10 Best Books (2010), New York Times Best Books of the Year (2010), Time Magazine's Best Books of the Year (2010), entre muitos outros, A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan, desafia certo conservadorismo acadêmico por apresentar-se com uma embalagem pop que muitos associam à literatura comercial descartável. Primeiro preconceito. Aliás, a frequência de uma obra na lista dos mais vendidos é inversamente proporcional à credibilidade que essa obra possui frente a alguns leitores mais exigentes. Segundo preconceito.

A visita cruel do tempo traz uma série de narrativas que se entrelaçam. De saída, percebemos a habilidade da autora na composição de uma rede de vozes narrativas que chamam o leitor para dentro da obra. Paul Ricoeur afirma, no capítulo Mundo do texto e mundo do leitor, no terceiro volume da obra Tempo e Narrativa: “somente pela mediação da leitura é que a obra literária obtém a significação completa”. Egan propõe uma tal engenhosidade narrativa que o leitor assume papel de destaque. É a literatura como jogo; a proposta de uma leitura que saia da zona de conforto e traga, a todo instante, enigmas a serem decifrados: Quem narra este capítulo? Em que tempo encontramo-nos? Quem são esses personagens? O leitor, fisgado pela narrativa, como diz Barthes, levanta a cabeça e debate os rumos a serem seguidos por Jennifer Egan.
Portanto, uma leitura atenta de A visita cruel do tempo requer dois pontos-chave para a discussão: a inventividade narrativa encaminha-se para um estudo de uma linhagem de narradores propensos a uma desestabilização no leitor, trajetória que já se observa desde Cervantes e Laurence Sterne; e a utilização do tempo na história – o tempo que emoldura a narrativa. O tempo que também é personagem. Se há dúvida em afirmar quem são os protagonistas da obra, certamente podemos perceber quem é o grande antagonista: o próprio tempo.

Desta forma, A visita cruel do tempo, traz o sabor da liquidez e da fragilidade nas relações atestadas por Bauman na contemporaneidade, e já assegura um posto de destaque de Egan entre os grandes nomes da literatura do século XXI.


Prof. Dr. Paulo Kralik Angelini estará presente no painel sobre A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan, dia 1 de setembro.

Notas sobre o contemporâneo

Colaboração de Andrea Kahmann

Este artigo (na falta de definição mais adequada, vou chamá-lo assim) é um compartilhamento de angústias que têm permeado os debates sobre as “Leituras do Século XXI” promovidos pela Profª Dra. Léa Masina por meio do Centro de Estudos Literários, em Porto Alegre. E pretendo iniciá-lo com um fato que presenciei. Afinal, se a “autoficção” é característica tão indubitável da malha teórica sobre literatura contemporânea, nada mais justo que se garantir a prerrogativa de invocar experiências pessoais, também, à crítica sobre a ficção, ainda que eu não tenha aprendido o nome que se dá a isso.

Na época em que eu lecionava na Universidade Federal da Paraíba, lançou-se a ideia de compor uma coletânea sobre literatura paraibana. E as paixões inflamaram-se em debates sobre a possibilidade de se incluir escritores como o “samparaibano” Amador Ribeiro Neto, o “pernambucampinense” Astier Basílio, o “paraibanucho” Lau Siqueira e outros que, talvez por falta de vocação sonora, não conseguiram cunhar para si uma justaposição de gentílicos capaz de soar agradável. O tema surgiu na minha sala de aula e iam longe já os argumentos de que “apenas os nascidos na Paraíba eram paraibanos”, quando um gaiato levantou o braço: “Professora, Clarice Lispector não nasceu na Ucrânia? Ôxe, e por que raios, então, eu tive de estudá-la para o vestibular?”. Pergunta debochada, mas pertinente. Na busca de uma solução “justa” para o impasse, alguém propôs a alternativa legalista: seriam aceitos textos de escritores que estivessem morando, ininterruptamente, há mais de 15 anos na Paraíba – a mesma lógica para processos de naturalização, ora. Comentei o caso na sala dos professores e uma colega de francês adorou a ideia. Mais: disse-me (num tom entre o desafio e a ironia) que vinha, há tempos, cogitando incluir Cortázar na ementa do curso de Literatura Francesa. E fui-me embora para Pasárgada sem saber como se encerrou a peleia por lá.

As conclusões deste episódio são óbvias, mas necessárias. Não é de hoje a perspectiva de que a literatura não deve ser enquadrada nas “caixas de aço” (retomando Barberena) dos lugares e dos não-lugares (esta expressão é de Jameson). E, apesar de antiga, essa querela pelo lugar da literatura ainda suscita discussões apaixonadas e tentativas reiteradas de sistematização a partir do território (recordo, aqui, o projeto dos Atlas literários promovido pelo IBGE). Na falta de solução, temos a tendência a considerar como “é nosso” aquilo que nos interessa e rechaçando aquilo que não nos convém, de forma a criarmos, para os localismos, a versão reduzida do “nacional por subtração”. Há tempos fazemos isso. Afinal, não é tão moderninha assim a figura do viajante, do desterrado, do que vive nas frinchas e no trânsito entre culturas. Walter Benjamin, em O narrador, já ponderava: “Quem viaja tem muito que contar, diz o povo, e com isso imagina o narrador como alguém que vem de longe. Mas também escutamos com prazer o homem que ganhou honestamente sua vida sem sair do seu país e que conhece suas histórias e tradições”[1]. O narrador marinheiro comerciante e o narrador camponês sedentário, para usar as expressões de Benjamin, sempre conviveram e seguem convivendo no mesmo sistema literário, ainda que, em determinadas épocas, façamos festinhas a um e procissões ao outro.

No último Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), em 2011, Rosana Corrêa Lobo, doutoranda pela PUC-Rio apresentou algumas ponderações sobre a coletânea “Amores Expressos”. Nesse trabalho, Rosana sintetizou as polêmicas que envolveram o projeto publicado pela Companhia das Letras, resultarando em debates acalorados na Folha de São Paulo e blogs de literatura. Afinal, que critérios nortearam a escolha dos autores? Ser amigo do mentor do projeto? E por que usar verbas públicas (provenientes da Lei Rouanet) para financiar a viagem e a estadia nas cidades escolhidas? Será mesmo preciso estar num determinado lugar para escrever sobre ele? Sem querer pôr mais lenha aos debates, a pesquisadora concluiu: “O que pretendo considerar é que se hoje a “patrulha” – comandada por jornalistas, editores, blogueiros e escritores contemporâneos - questiona os projetos literários no que diz respeito a quem pegou ou quem perdeu o “bonde”, se o bonde tinha muitos benefícios ou não, se era movido a dinheiro público ou não, em outros tempos, no século XIX e início do XX, a patrulha monitorava a origem do bonde, se o bonde ia percorrer ‘autênticas’ paisagens brasileiras ou não, se ele transportava índios, negros, mestiços, ou seja, se o bonde tinha a cara do Brasil”[2].

De fato, Rosana, o bonde do Brasil parece não suscitar tantas polêmicas porque acompanhamos essa novela de dentro de casa. Já superamos a crise alencarista depois de muita terapia. Ninguém duvida que Clarice Lispector seja digna representante das letras brasileiras. Contudo, nada é tranquilo quando se discutem as tintas regionalistas. Essa tensão permanente entre global e local, entre ser do mundo ou ter raízes, esse meter-se nas frinchas mas estar permanentemente “fora do lugar”, é herança daquele pós-moderno cunhado pela década de 60 e que as nossas leituras do século XXI herdaram e reinventaram com novas cores. Referi o exemplo da Paraíba, mas, aqui nos pampas, também nós ficamos ruminando se a literatura é gaúcha, gauchesca ou sul-rio-grandense. Afinal, a literatura é “nossa” quando feita pelos nascidos no Rio Grande do Sul e que a escrevem não importa de onde (incluindo, então, o “paraibanucho” Lau Siqueira)? É a que trata sobre temas que consideramos afeitos ao Rio Grande do Sul, não importa por quem tenha sido escrita (por exemplo, o uruguaio Mario Arregui)? É aquela escrita no Rio Grande do Sul, não importa onde tenha nascido o escritor (caso de alguns livros de Daniel Galera)? Ou se, por fim, é aquela que transita pelo Rio Grande, não importando suas origens (momento em que seríamos forçados a reconhecer como literatura gaúcha todas as traduções que influenciam esse sistema literário)? Teremos de aplicar, também aqui, as regras da naturalização, das duplas nacionalidades, ou uma junção estruturalista e matemática de regras para definir a partir de quando estaremos tangenciando essa literatura localista que insiste em proclamar que tem história e características peculiares? E será que o local da cultura importa mesmo tanto assim? Teóricos pós-colonialistas assentiriam graves a essa pergunta, mas isso é tema que se há de tratar nos divãs da afirmação identitária.

Voltando à pesquisa apresentada na Abralic, concordo com Rosana quando ela argumenta que há uma via comum entre todas as narrativas de “Amores Expressos”: “Neste mundo pós-utópico, o que vemos nestas narrativas são essas personagens afundando, afundando, sem nem sequer pedirem socorro pois a esperança foi substituída por um presente trágico, hostil, empoeirado e impositivo. Personagens deslocadas, que veem se desfazerem seus vínculos com a terra natal, marcados pelo sentimento de não-pertencimento a qualquer espaço, a qualquer esfera de identidade palpável e que buscam em vão um lugar mais habitável”[3]. Convencionou-se designar que é um tema pós-moderno esse desencaixe. A aceleração generalizada dos tempos de giro do capital, segundo Harvey, induziu à dinâmica de uma sociedade do descarte: do ser capaz de jogar fora não somente bens de produção, mas também “estilos de vida, relacionamentos estáveis, apego a coisas, edifícios, lugares, pessoas e modos adquiridos de agir e ser”[4]. O descentramento do sujeito[5] implicou não apenas em algumas rupturas com as tradições, mas o recalque (em acepção freudiana) do sentir. Assim, postula Jameson, o poder oculto da tradição pode ter sido soterrado por autonomia e liberdade, mas “a liberação, na sociedade contemporânea, da antiga anomie do sujeito centrado pode também implicar não apenas a liberação da ansiedade, mas também a liberação de qualquer outro tipo de sentimento, uma vez que não há mais a presença de um ego para encarregar-se de sentir”[6]. O lado sombrio desse fenômeno é assinalado por Giddens como sendo o aumento das dependências e compulsões[7]. Porém, tal esquizofrenia (e essa expressão cunhada por Jameson talvez seja a mais representativa daquilo que se convencionou chamar de “pós-moderno) assumiu a responsabilidade pelo caminho diametralmente oposto. Segundo Harvey: “Quanto maior a efemeridade, tanto maior a necessidade de descobrir ou produzir algum tipo de verdade eterna que nela possa residir. O revivalismo religioso, que se tornou muito mais forte a partir do final dos anos 60, e a busca de autenticidade de autoridade na política (com todos os seus atavios de nacionalismo, localismo, admiração por indivíduos carismáticos e “multiformes” com sua “vontade de poder” nietzschiana) são casos pertinentes. O retorno do interesse por instituições básicas (como a família e a comunidade) e a busca de raízes históricas são indícios de procura de hábitos mais seguros e valores mais duradouros num mundo cambiante”[8].

Já dizia a filosofia chinesa: em yin há sempre yang. Assim, se a fuga dos constrangimentos do passado é tema do contemporâneo, também o é a metaficção historiográfica e essa necessidade de reescrever e reinventar as memórias, como talvez ocorra com Zoé Valdés e sua ficção pró Fulgencio Batista. Se é fato que colocamos em xeque a subversão de gênero, é igualmente válido considerar que uma transexual acalente o desejo de ser uma conservadoríssima mãe de família, como ocorre em “Sirena Selena, vestida de pena”, de Mayra Santos-Febrés. E é assim que a espanhola Lucía Etxebarría propõe “A Eva Futura” na qual estabelece conceitos sobre o que vem a ser “feminismo” hoje e encerra a edição com um questionário que inclui a esponja com que tu lavas a tua louça. Outras questões do teste de Etxebarría sugerem que tu és uma desesperada se a primeira coisa que fazes ao chegar em casa é verificar as mensagens no celular e a caixa de e-mails. É como nos sentimos acompanhados em perfeita solidão: criando subterfúgios na realidade (sic) virtual. Esse suporte da internet, que poderia conceber um livro inteiro sustentado na troca de e-mails (estou pensando em Leticia Wierzchowski), por que é chamado de literatura quando impresso num exemplar que pode ser autografado na Feira do Livro? Notemos: não é apenas o local da cultura que entra em crise, mas o próprio conceito de literatura se esfacela ante os folhetins, os blogs e suportes outros, como o Twitter, tão celebrado por Carpinejar. E se o esfarelamento do narrador e dos gêneros literários (como Altair Martins faz com maestria), se o soltar-se das amarras das teorias clássicas é uma faceta do contemporâneo, também o são os versos do jovem Astier Basilio, quando procura nas formas fixas do cordel a régua para a sua poesia. O fanatismo da fragmentação da forma não pode chegar ao extremo de gritar frente a um soneto: “isso é coisa do demônio!”. Porque essa esquizofrenia do contemporâneo abarca o híbrido: não só a literatura transnacional e desencaixada de “Amores Expressos”, mas também aquela que conscientemente pretende a cor local, os relatos rurais e as relações primárias, para fazer referência aos eixos referidos por Beatriz Rezende e tão de acordo com Harvey. Eis a liberdade promovida pela literatura, que sempre deixou dialogar as diferenças.

Acredito, sim, que as próximas gerações se lembrarão de nós como os homens que descobriram o virtual com o mesmo espanto dos que viram a primeira máquina a vapor. A internet ressignificou a cultura, a noção de tempo e as relações transpessoais, já dissemos. Mas não só isso, ela democratizou a informação e criou novos pânicos: o ficar desconectado, o de estar desinformado, o de não confiar nas fontes, o de ver, num estalar de dedos, a sua tese ruir, a difamação propagar-se, a privacidade ir pro espaço e os direitos autorais descerem pelo ralo. Seguem em nós os ecos de Auschwitz, de Hiroshima e Nagasaki, mas ultrapassamos as angústias dos homens da década de 40. Não queremos permanecer na mesma gaveta de “pós-modernidade” que eles. Esse homem médio, que no final do século XX, se deslumbrava com a internet discada tampouco nos diz respeito. Somos os primeiros a falar em “pós-humano” e não escondemos a nossa euforia e o desconserto em frente a isso tudo.

Pode ser que as próximas gerações se lembrem de nós como os leitores espantados de “Eles eram muitos cavalos”, de Luiz Ruffato, de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, de “Os verbos auxiliares do coração”, de Péter Estherházy e de toda essa escrita de esfacelamento da forma, de descentramento do narrador, de zonas de contato com outras plataformas semióticas. Mas haverá quem se recorde da escrita de Mia Couto e tentará compreender como essas angústias conviviam com referências tribais, com analfabetos, fome, guerras, amputações por causa de minas terrestres e AIDS. Nesse contemporâneo de tão poucas certezas (imagino, aqui, um risinho de escárnio de Tiago Bernardón de Oliveira, meu caro amigo historiador e marxista, que insiste em recordar: todas as épocas foram de incertezas), retomo Walter Benjamin para ponderar que é possível que tenhamos perdido parte dessa capacidade de narrar no sentido de compartilhar experiências. Gustavo Melo Czekster, em sua contribuição para o blog “Leituras do Século XXI”, disse-o muito bem: “Eu gostaria de ler uma obra literária e aprender com ela, não levar o escritor/personagem para tomar um café em casa”.  E se digo que essa capacidade foi perdida apenas em parte é porque em yin há sempre yang.

Gustavo Czekster e eu somos cúmplices nesse desconforto diante da escrita pirotécnica que se convencionou chamar de “literatura contemporânea”. Talvez com a mesma desconfiança de Monteiro Lobato em face de Anita Malfatti. Talvez com cara de Chico Buarque que ficou sem saber o que Caetano pretendia com aquela guitarra elétrica. Concordo com Gustavo que “o determinante na literatura ainda é uma história bem contada”, embora eu reconheça que é possível, com o tempo (senhor da razão; já perdoamos o clichê), que mudemos nosso conceito de “história bem contada”. Apesar de tudo isso, tenho cá meus palpites sobre o que estamos vivendo em Porto Alegre de forma geral e especificamente nesses seminários da Profª Léa Masina. Mais do que gostar, ou não, dessas leituras do século XXI, o importante é conhecê-las, entendê-las, pensar a respeito. Ou, como antes de mim, disse meu colega Gustavo Melo Czekster: “A quantidade de dúvidas é diretamente proporcional à alegria causada pelas reflexões”. Afinal, posso não querer ter uma reprodução de “Guernica” na parede da minha sala de estar, mas pensar os rumos da arte a partir de Picasso é fundamental quem se pretende culto. E estabeleço essa relação com uma alegria secreta: os inícios de século são sempre extasiantes! Nossas crises cibernéticas estão desencadeando outras vanguardas, avassaladoras como as do século que se foi. Sim, estamos na vanguarda! E entendo que isso dê medo a nós, gaúchos, que não superamos a “caixa de aço” da tradição. Não por nada brotam Centros de Tradição Gaúcha mundo afora com dogmas sobre ritmos e movimentos e prescrições de como assar um pedaço de carne. Eu mesma escrevo isso lavando mate – e ando lá pela quinta chaleirada! Além do movimento nativista, do bairrismo risível ou levado a sério, somos tendencialmente conservadores com a cultura dita “erudita”, a qual procuramos desesperadamente salvaguardar dos ataques do populacho, do novo, do efêmero. Mas junto com a literatura de tendência rural e redondinha na forma, pipocam propostas absolutamente inovadoras, como as dessa gurizada publicada pelos selos editoriais que querem mudar os ares da cultura porto-alegrense. Não sei qual nome as próximas gerações darão a esse movimento que estamos presenciando de camarote; só sei que ele é sui generis. Falarão das oficinas, dos seminários, da escrita criativa sendo levada a sério pelas universidades, das editoras que subvertem padrões, dos grupos que se reuniam para discutir o que escreviam e também o que liam e com base em que propostas teóricas interpretavam o que liam. Fascina-me essa efervescência cultural de Porto Alegre hoje. Não chego ao ponto de dizer que vivemos a Renascença das Letras, mas entendo as razões de quem estabelece tal comparação. E, francamente, não sei se ficarão para os manuais de literatura as páginas de letras sobrepostas, os trechos que parecem gráficos ou apresentações de power point. Só digo que não quero perder o bonde da história. Nem que seja para decidir, ao fim, que é preciso trotar a cavalo, redefinir fronteiras e rediscutir o que é, afinal, ser gaúcho. Nem que seja para retomar a forma fixa, a rigidez dos gêneros, os temas calcados na tradição. Nem que seja para decidir que é preciso voltar, como, aliás, também eu voltei para a minha ilusão de “casa” depois de provar o desencaixe e um presente empoeirado, impositivo e trágico. Aposto que Léa Masina esperava uma conclusão com Habermas, mas encerro este artigo citando Mano Lima: só quem saiu de casa tem pra onde voltar.

Andrea Kahmann é Licenciada em Letras pela UNISC, Mestre em Literatura Comparada pela UFRGS, foi Professora do Bacharelado em Tradução da UFPB. Atualmente, é analista do IBGE.




[1] BENJAMIN, Walter. O Narrador: observações sobre a obra de Nikolai Leskow. In: Benjamin, Horkeimer, Adorno e Habermas – Textos escolhidos. São Paulo: Abril, 1983. p. 58. Coleção Os pensadores.
[2]  LOBO, Rosana Corrêa. Amores Expressos: literatura brasileira em tempos de globalização. Disponível em: <http://www.abralic.org.br/anais/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC0672-1.pdf> Acesso em: 21 ago. 2012.
[3] Ibidem.
[4] HARVEY, David. Condição pós-moderna. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1992. p. 258.
[5] Cf. JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Tradução de Maria Elisa Cevasco. 2. ed. São Paulo: Ática, 1997. p. 42
[6] JAMESON, op. cit., p. 43.
[7] GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Tradução de Maria Luisa X. de A. Borges. 4. ed. Rio de Janeiro / São Paulo: Record, 2005.  p. 56.
[8] HARVEY, op. cit., pp. 263-264.

domingo, 19 de agosto de 2012

Algumas questões para suscitar debates

Contribuição da Profa. Léa Masina, a partir de manuais teóricos que tratam a questão das literaturas de fins do século XX e início do século XXI.


Pós-modernidade é um nome genérico dado para formas culturais de um período que aparece desde os anos de 1960. Abrange certas características como reflexão, ironia e um tipo de arte que mistura o popular e o erudito.
(...)

Ela envolve a combinação aparentemente paradoxal de autoconsciência e algum tipo de fundamento histórico, porém ironizado. Por exemplo, o que foi chamado de “metaficção historiográfica” (Hutcheon) é uma ficção preocupada com seu estado de ficção, de narrativa ou de linguagem, e também fundamenta alguma realidade histórica verificável.


Os discursos pós-modernos instalam e subvertem convenções; e normalmente tratam essas contradições com ironia e paródia.  Empregando formas e expectativas tradicionais e as destruindo ao mesmo tempo, os discursos pós-modernos conseguem apontar as convenções como convenções e isto inclui estruturas ideológicas como capitalismo, patriarcado, imperialismo e mesmo humanismo.

O discurso pós-moderno também desafia os limites fixos entre os gêneros, entre os tipos de arte, entre teoria e arte, entre arte erudita e cultura de massa.

A dubiedade política estratégica é o denominador comum de muitos discursos pós-modernos e é também uma das razões para as diferenças de opinião sobre a validez e valor da pós-modernidade que problematiza temas como história, representação, subjetividade, ideologia e pobreza.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Inquietações sobre o contemporâneo


Inquietações sobre o contemporâneo

Colaboração de Gustavo Melo Czekster



Ao final da palestra do professor Ricardo Barberena, proferida na manhã do dia 04 de agosto, percebi que estava com mais dúvidas do que certezas. Mérito completo do palestrante: qualquer exposição de um assunto que desperte mais questionamentos ao invés de respostas demonstra a acuidade do tema, a sua relevância e a possibilidade de interagir com o objeto estudado. No caso, o professor Barberena falou da literatura contemporânea, ensinando sobre as características principais e as formas predominantes com que ela se apresenta. É um assunto ingrato, pois estamos vivendo em plena contemporaneidade. Falta o distanciamento crítico que somente o Tempo é capaz de fornecer, permitindo-nos ver aquilo que permanecerá e aquilo que será descartado. Para ficar em um exemplo que nos é caro, sempre podemos mencionar o texto “Kafka e seus precursores”, de Jorge Luis Borges, em que ele menciona as dezenas de escritores que eram contemporâneos à Kafka e a História literária esqueceu, mas cujos estilos e temáticas foram absorvidos para a formação do próprio escritor tcheco. Ainda que o Tempo não nos permita tal distanciamento (e as próprias noções de Tempo precisam ser revistas, pois a internet e a disseminação das informações transformaram a simultaneidade em um dos traços do mundo contemporâneo, diferenciando-o da época de Kafka e da própria época em que Borges teceu as suas reflexões), sempre é aconselhável dispor de alguns mecanismos teóricos para saber identificar o contemporâneo, em especial diante da miríade enlouquecedora de livros publicados e hoje disponíveis nas prateleiras das livrarias.



Por estar em formação, ainda se movendo em um terreno de instabilidades, o contemporâneo não significa necessariamente qualidade. Não é pelo fato dos autores atuais terem acesso às obras ditas clássicas que eles sabem o caminho que um livro deve seguir para sobreviver à passagem dos tempos. Ao contrário, os autores enfrentam a própria noção de clássico, em um processo que denota vontade de corromper a forma já estabelecida e, ao mesmo tempo, desejo de se manter fiel à tradição, naquele movimento pendular e contraditório que Harold Bloom convencionou chamar de “angústia da influência”. E não só isso: o mundo tornou-se um local muito maior. No passado, existiam as literaturas ditas periféricas, apesar do caráter pejorativo de tal conceito, quase inexistente na teoria atual depois de tantos anos de revisão, pois não podemos mais definir o que seja periferia, em especial se desconhecemos onde fica o centro. Porém, em homenagem ao aspecto histórico da teoria literária pós-colonialismo, consideravam-se periféricas as literaturas orientais, sul-americanas e africanas, ou seja, todas aquelas que destoavam do europeu e do anglo-saxônico. No mundo contemporâneo, tal divisão cartográfica não mais existe. Basta olhar as livrarias para se perceber um acúmulo de escritores fora do dito Primeiro Mundo. Como o professor Barberena muito bem frisou, não mais existem “fronteiras” a separarem um país do outro. Existem “limiares”, áreas de conurbação onde países e culturas diferentes criam um amálgama distinto das divisões geográficas.

Tais conceitos afetam o contemporâneo. Os escritores falam do mundo para o mundo. Neste aspecto, o professor Barberena afirma que a literatura virou algo constelar. No meio do universo, existem estrelas brilhando com maior ou menor intensidade, e um observador ocasional pode concentrar a sua atenção naquela que lhe parecer mais interessante, assim como a luz de estrelas próximas pode se tocar ou se afastar. Para entender este movimento, o conceito de rizoma conforme abordado por Gilles Deleuze – também trazido a lume na palestra – revela-se de suma importância, pois fica impossível ver onde começa e onde termina uma obra, assim como as suas implicações e cadinho de referências avança e retorna no Tempo, constituindo uma unidade indissolúvel da qual somos incapazes de ver a origem ou pressupor qual é o seu final. O movimento da literatura contemporânea representaria tanto o todo universal (uma constelação) como uma singularidade particular (um rizoma). No meio destes dois extremos, está a obra literária.

No afã de criar normas mínimas para identificação do contemporâneo, o professor Barberena listou nove características que, em maior ou menor grau, aparecem na literatura atual. Elas seriam: 1) fragmentação; 2) hibridez; 3) intertextualidade; 4) auto ficção; 5) colagem; 6) transnacionalidade; 7) da obra ao texto; 8) História como artefato narrativo e 9) a Literatura como liberdade. Em texto anterior colocado neste blog, todos estes requisitos foram muito bem analisados. Chamou minha atenção um detalhe comum a todos os traços desta contemporaneidade: eles dizem respeito à forma do texto, não ao seu conteúdo. Quais seriam os temas contemporâneos? Existe algum tema comum a todas as obras? Ou, melhor ainda, algum tema que nunca seja abordado? A classificação sugerida pela professora Beatriz Rezende, conforme exposta na palestra, trata de cinco características das obras contemporâneas. No entanto, elas são imprecisas o suficiente para que qualquer obra se encaixe no seu interior e, assim como a professora Léa Masina externou durante a palestra, prefiro a classificação feita pelo professor Ricardo Barberena.
A escolha majoritária da subversão da forma como um dos traços da literatura contemporânea me fez refletir. Particularmente, sempre achei a deturpação da forma do texto literário mais pirotecnia do que método, uma forma de esconder a singeleza do assunto por meio da brincadeira com o meio físico. Se pensarmos bem, literatura é feita de palavras e de ideias (dizem que também envolve trabalho e suor, mas ficarei no campo pragmático). Brincar com o formato do livro, com a textura da página, com a disposição das letras, com a inserção de elementos alienígenas a distrair da história me parece tão excitante quanto aqueles livros infantis que, ao abrir as folhas, revelam um castelinho. Um livro que precisa chamar a atenção brincando com o próprio formato pode ser considerado literatura ou devemos pensar no caráter lúdico da experiência? Não existem respostas fáceis para tal indagação. No entanto, a julgar pelas obras referidas como exemplos na palestra, um dos principais traços da prosa contemporânea é a brincadeira com a forma, o livro se tornando um item a ser consumido como qualquer outro objeto perecível. Aliás, este é um movimento experimentado por todos os campos artísticos: a obra transformando-se em um objeto de consumo ou, como disse o professor Barberena em uma afirmativa que assombrou minha cabeça por dias, “o livro como uma instalação artística”.

Em tempos recentes, lendo obras contemporâneas, constatei que um dos fatores que mais me desagradava era a predominância do narrador de primeira pessoa ou de narrativas voltadas para o ego de um personagem, o qual, era óbvio, não passava do próprio autor. Estava sentindo falta das narrativas despersonalizadas, ou na terceira pessoa, ou com um narrador onisciente, ou um narrador neutro, ou qualquer tipo de narração que não tentasse me doutrinar com o seu ponto de vista. Eu gostaria de ler uma obra literária e aprender com ela, não levar o escritor/personagem para tomar um café em casa. É um grande exercício de egocentrismo tentar dividir a própria personalidade no meio dos exemplares de um livro e entrar na intimidade do leitor. A influência maior deste estilo de literatura vem do fato da contemporaneidade estar vinculada como nunca à própria noção do eu e do egoísmo da personalidade, exemplificado pelos blogs que infestam a internet e até mesmo o new journalism, em que o jornalista deixa de ser veículo para a condução da história e passa a ser partícipe. Contudo, lendo uma biografia de Michel de Montaigne, constatei que “Os ensaios”, escrito no século XVI, já era uma narrativa ligada ao eu e, ainda assim, tornou-se literatura e sobreviveu aos séculos. Ao que tudo indica, escrever exclusivamente sobre si mesmo não é um traço determinante do mundo contemporâneo. Desde o início dos tempos, desde o primeiro homem que desenhou a si mesmo caçando um mamute, a literatura é um grande exercício da individualidade do artista. Neste caso, o que diferenciaria as obras literárias seria a qualidade da visão do mundo proposta no seu interior. E isto é algo que escapa do contemporâneo.

Retornando à palestra, o professor Barberena afirmou que o importante seria a validade estética do texto literário. Considerando-se o conceito grego clássico, a estética é o estudo da natureza do belo e da composição da arte como veículo para expor e disseminar a beleza no seu conceito mais distendido, que pode inclusive abarcar a feiura, o grotesco e o ridículo. Podemos dividir a análise da beleza de uma obra literária em dois aspectos: a forma e o conteúdo. Pelo o que observei na palestra, a literatura contemporânea afirma que a beleza estética está mais vinculada à forma com que o livro se apresenta e à sua capacidade de disseminar-se em razão de tal formato do que ao conteúdo nele exposto. No entanto, de acordo com o ensaio “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin, aquilo que determina a permanência da obra literária seria o seu conteúdo, que também é uma forma de apreciação estética. Neste sentido, não pude deixar de perceber que o conteúdo parece estar dissociado da forma.

Entre outras, algumas das características apontadas pelo professor Barberena de uma obra literária contemporânea soaram estranhas: a criação de listas arbitrárias e a repetição exaustiva de palavras e construções linguísticas. Ainda que seja um traço pós-moderno, a colocação de listas dentro de um texto literário, se for desmotivada, parece exatamente aquilo que é: um jogo insosso de palavras para criar um efeito mecânico, não estético, e aludirmos à “mecanização das relações humanas” ou coisa que o valha. Não me atrai muito; como diria Calvino na introdução de “Por que ler os clássicos”, quando se percebem as estruturas em que o texto veio a surgir, a magia da construção desaparece. Com relação à repetição de palavras, de construções linguísticas e de situações, parece mais um jogo utilizado para enfrentar a velocidade da leitura e fixar pontos na cabeça do leitor por repetição, mais ou menos como uma “decoreba” feita no colégio. Um papagaio também repete palavras, e isto não o torna mais contemporâneo do que aqueles que lhe antecederam.

Os dois pontos destacados pelo professor Barberena caracterizam a produção literária contemporânea. A literatura é tratada como um jogo entre autor e leitor, ao invés da transmissão de uma história. No entanto, como o palestrante bem destacou, o contemporâneo é muito mais do que isto, escapando de definições cômodas, algo que traduz um pouco mais de tranquilidade para aqueles que só querem ler uma boa história sem se sentirem ofendidos pela deficiência intencional da sua construção para agradar ao público. Para este tipo de leitura, o professor destacou o conceito de paralaxe, algo trazido da astronomia para dentro dos estudos literários, dizendo que a posição do observador da literatura contemporânea está em constante movimento. O que agrada um leitor pode desagradar o outro, assim como a própria noção de contemporâneo pode modificar com a passagem do tempo e a mudança do público. A paralaxe desestabiliza a teoria. É um pensamento confortador; talvez as minhas inquietações sobre o contemporâneo se tornem despropositadas. Talvez apontar características da literatura contemporânea seja uma forma de entender os fenômenos sociais e como eles se refletem em uma expressão artística. Ou, talvez, ser contemporâneo também signifique ser o fantasma de um Natal passado. A quantidade de dúvidas é diretamente proporcional à alegria causada pelas reflexões.

Ainda acredito no caráter de imanência das obras literárias. Ainda acredito que o diálogo intermitente com o passado é aquilo que forma o contemporâneo, por maior que seja o pastiche e o desejo de renegar as obras clássicas. Recordando o belo “Introdução ao Método de Leonardo da Vinci” de Paul Valéry, citado en passant pelo professor Barberena, transcrevo um trecho: “Internamente há um drama. Drama, aventuras, agitações, todas as palavras dessa espécie podem ser empregadas, contanto que sejam numerosas e corrigidas uma pela outra. Esse drama se perde na maior parte das vezes, exatamente como as peças de Menandro. Contudo, guardamos os manuscritos de Leonardo e as brilhantes notas de Pascal. Esses fragmentos nos forçam a interrogá-los. Fazem-nos adivinhar através de que sobressaltos de pensamentos, de que extravagantes introduções dos acontecimentos humanos e das sensações contínuas, depois de que imensos minutos de fraqueza mostraram-se aos homens as sombras de suas obras futuras, os fantasmas que precedem. Sem recorrer a exemplos tão grandes que acarretem o perigo dos erros da exceção, basta observar alguém que se acredite sozinho e abandone-se; quem recua diante de uma ideia; quem a segura; quem nega, sorri ou contrai-se; e imita a estranha situação de sua própria diversidade. Os loucos se entregam a ela diante de todo o mundo.” Na gênese de cada obra, existe o reflexo dos fantasmas do passado. Quanto mais o autor tenta recusar esta sombra, mais a sua obra se afasta dos grandes valores. Ao contrário do que parece ser uma tendência do contemporâneo, o importante não é a forma nem a metalinguagem ou a inserção do autor como personagem da própria história narrada. O determinante na literatura ainda é uma história bem contada. Assim como Valéry descrevendo a solidão das ideias de Da Vinci, acredito que, para sobreviver à passagem dos anos, o contemporâneo precisa encontrar refúgio naquilo que é mais essencial a qualquer ser humano: a voz interior que precisa ser falada e atravessar os séculos. Ainda precisamos ver o homem por trás da obra, não a forma que ele escolheu para expor as suas inquietações, e sim a sua própria essência. E isto ocorre nos momentos de silêncio, nos angustiantes segundos em que o artista fraqueja, na sua própria falibilidade. Na capacidade de passar o eterno para dentro de um texto. Este é o teste que a literatura contemporânea ainda deverá enfrentar. Contudo, como a palestra do professor Barberena ensinou, uma série básica de análises de requisitos será sempre essencial para separarmos o joio do trigo, a permanência da volubilidade. Só nos resta esperar o julgamento do Tempo. Para encerrar com um clichê tão desprezado nos meios literários, mas que sempre atrai o grande público, o Tempo ainda é o senhor da razão.
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Gustavo Melo Czekster é Mestre em Literatura Comparada pela UFRGS e escritor, autor do livro "O homem despedaçado" (editora Dublinense).