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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Os motivos (teóricos) da minha decepção com Péter Esterházy em “Os verbos auxiliares do coração”*

Colaboração de Gustavo Melo Czekster

Há algum tempo eu não escrevia nada mais teórico. Pelo menos nada publicável; mantenho meus escritos teóricos para consumo próprio. No entanto, devido à minha leitura de “Os verbos auxiliares do coração”, de Péter Esterházy, como parte do evento “Leituras do Séc. XXI”, senti necessidade de escrever as minhas considerações. Nem tanto em relação à palestra do professor Biagio D’Angelo – que foi muito acurada, inclusive ajudando a fundamentar o meu ponto de vista neste breve ensaio -, mas com o fato de eu ter me sentido logrado ao final da leitura.
Ao término da leitura de “Os verbos auxiliares do coração”, de Péter Esterházy, eu me senti incomodado. Foi difícil precisar o motivo. Em um primeiro momento, poderia ser a história, que trata da forma com que o autor/personagem/narrador lidou com a morte da sua mãe, em um acerto de contas amargo com o passado. Contudo, logo afastei esta possibilidade: a literatura de luto virou um rentável filão editorial e existem dezenas de livros explorando leitores com relação a tal sentimento, não causando mais o frisson que se esperaria de assunto tão polêmico (A este respeito aconselho a leitura do artigo da revista Época presente no link http://revistaepoca.globo.com/cultura/noticia/2011/09/literatura-de-luto.html). Em uma segunda análise, pensei que o desconforto poderia estar ligado ao fato do autor/personagem/narrador ter descrito as suas sensações após a morte da mãe em algo pretensamente biográfico (podemos confiar tanto assim no autor a ponto de saber que o escrito realmente ocorreu?). A figura da mãe é carregada de simbolismos, e pareceu-me confortável abordar um tema em que o leitor possui capacidade de identificação instantânea, pois todo mundo já perdeu algum ente querido e todo mundo tem mãe. Com estas variáveis na equação literária, torna-se difícil fazer um texto que não seja sucesso. No entanto, não foi isso que me deixou desconfortável, pois todos sabem que, desde a Ilíada e a Odisséia, na realidade só existem duas histórias em torno do qual a literatura circula nas mais diversas variações: a volta para casa e a batalha pelo auto-conhecimento. Por fim, após uma longa deliberação interna, consegui precisar o que me incomodou: a simbiose indecente e cômoda de autor/personagem/narrador, um dos traços da literatura contemporânea, em algo que considero uma vulgarização do voyeurismo, uma demonstração estéril de virtuosismo.
Seria um bom momento para citar Hannah Arendt e o seu conceito de “banalidade do mal”, que também se aplicaria no que pretendo escrever, pois Esterházy age dentro das regras da literatura de forma a banalizar os seus sentimentos e manobrar o leitor em busca de uma falsa epifania. Neste diapasão, considero o subtítulo “Uma introdução à Literatura” como a expressão mais irônica da sua real intenção, pois Literatura envolve sentimentos genuínos, ainda que o autor seja o primeiro mentiroso, pois, se transmite o que pensa com tal intenção, ele não é mais genuíno e nem é mais sentimento. Aqui não é o momento e nem o lugar correto para expor esta ideia. Prefiro me deter no traço do contemporâneo que detectei, gerando um afastamento dos meus sentimentos de leitor em relação ao livro.
Por muitos anos, a crítica literária debateu a figura do autor diante da sua obra: seria necessário ler um livro sabendo quem foi o autor ou as suas intenções na hora de escrevê-lo? Em alguns momentos, inclusive, chegou-se ao extremo de defender uma análise literária na qual o autor não teria mais nenhuma relevância, adotando somente a obra como paradigma de referência. Esta teoria foi chamada de “a morte do autor”, mas o assunto pertence ao campo da crítica literária. Sou um leitor, não um crítico. Destaco esta teoria somente para dizer que, hoje, ocorre o contrário do apregoado nela: parece-me que os livros contemporâneos só possuem validade quando lidos em conjunto com a vida do autor. A pulsão criativa tão louvada pelos críticos deslocou-se da epifania de um texto bem escrito para o quanto este texto está vinculado à vida do autor que o produziu. Quanto maior a identificação dos fatos narrados por ele com o seu texto, melhor seria a experiência de vida nele descrita. Os leitores estão se tornando voyeur das vidas dos autores, e confundem tal vinculação com excelência literária.
É uma tendência da literatura contemporânea, e vale a pena observar, pois a observação é o primeiro passo para a desconstruir um engodo ou reafirmar uma realidade. Para ficar somente em exemplos atuais, destaco dois livros em que isto aconteceu: “O filho eterno”, do Cristóvão Tezza, e o recente “A queda”,do Diogo Mainardi. São obras cuja análise não se detém no seu valor literário, mas em circunstâncias de vida enfrentadas pelos autores, abordadas “com coragem” (para usar um eufemismo tão amado pela crítica). São livros que necessitam de forma indelével da figura do autor para existirem e serem valorizados pelos leitores.
Todo leitor procura o autor dentro do seu texto, de forma consciente ou não. Impressiona na literatura atual que o status de autor tenha adquirido maior importância do que a própria história narrada, como se a tentativa de criar vida em um livro dependesse da aparição mágica do demiurgo na trama. Recordo aqui Foucault e a sua defesa do locus ocupado pelo autor em relação à história:
“(…). É sabido que, em um romance que se apresenta como o relato de um narrador, o pronome da primeira pessoa, o presente do indicativo, os signos da localização jamais remetem imediatamente ao escritor, nem ao momento em que ele escreve, nem ao próprio gesto de sua escrita; mas a um alter ego cuja distância em relação ao escritor pode ser maior ou menor e variar ao longo mesmo da obra. Seria igualmente falso buscar o autor tanto do lado do escritor real quanto do lado do locutor fictício; a função autor é efetuada na própria cisão – nessa divisão e nessa distância.” (“O que é o autor?”. In: FOUCAULT, Michel. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Coleção Ditos e Escritos. V. III. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. P. 264-298)
Na literatura contemporânea, a divisão entre narrativa e autor é cada vez mais desconsiderada. Em uma tentativa de criar vida na ficção, o próprio autor aparece na obra como autor/personagem/narrador, caso de Péter Esterházy. No entanto, não é a vida que um autor deve buscar, e sim a sua imitação. Se não existir um motivo específico ou ficcional para que o autor figure na narrativa, a sua presença se torna um fardo, além de demonstrar insegurança sobre a recepção, pois quem pode criticar “Os verbos auxiliares do coração” sem criticar o próprio autor que narra a sua gama de sentimentos díspares? A confusão de tragédia – no conceito aristotélico – com melodrama é visível, e a presença do autor só potencializa esta sensação de desconforto, de que criticar o livro é impossível sem criticar o autor que lhe deu origem. Pelo teor dos demais comentários e postagens feitas no blog do “Leituras do Séc. XXI”, o livro é elogiado mais pela pena que os leitores ficam em relação ao seu autor, e não pelo valor intrínseco da narrativa, cuja estrutura fria e cortante soa com o mesmo vazio estético de uma casa projetada por Le Corbusier.
Na primeira parte do livro, o autor/personagem/narrador se entrega a uma descrição detalhada dos sentimentos conflitivos que se sucederam pouco antes e pouco depois da morte da sua mãe. Na segunda parte, o autor se entrega a uma fantasia intertextual, em que trata da mãe como um misto de criatura verdadeira com ficção, tecendo longos comentários que demonstram a sua erudição e o manancial de obras que constituíram a narrativa, até terminar em um mistura bestial e excelsa de Édipo com Saturno. Poderia ter funcionado, se o autor/personagem/narrador não tivesse sacrificado a verossimilhança e o sentimento para demonstrar os seus livros de formação. O livro ficou no meio termo de um depoimento sentimental e um exercício de estilo, com a diferença de que não conseguiu virar nenhum dos dois, fracassando em ambas as tentativas.
Façamos uma auto-análise: nossos comentários sobre os livros se prendem à história narrada e a sua capacidade de atração ou estamos falando de como o autor articulou a sua experiência de vida dentro de um livro? São abundantes as análises de livros tentando vinculá-lo às vidas dos seus autores. Quando não conseguem isto, o desconforto é palpável, haja vista a quantidade de indagações e criações mirabolantes que perseguem a crítica quando a figura do autor de uma obra portentosa se desvanece sem deixar um campo seguro de análise, caso de Shakespeare. Aliás, como se torna difícil analisar uma obra literária sem a muleta confortante que é a vida do autor! Tudo soa tão explicável quando fazemos esta análise em conjunto – até mesmo a arte.
No caso de Esterházy, o desconforto é ainda maior, pois ele anuncia a sua intenção de nos comover pela escolha do assunto logo no prefácio. Quando afirma “Faz quase duas semanas que minha mãe morreu, tenho de me entregar ao trabalho antes que a necessidade demasiado ardente de escrever sobre ela recue para o mutismo covarde com que reagi à notícia da morte”, é quase impossível distinguir se a força motriz do impulso criativo é o desejo de compartilhar a angústia dos sentimentos com o leitor ou se é a vontade de aproveitar uma tragédia para escrever um livro. Nenhuma pessoa de sã consciência vai dizer que Esterházy escreveu “bobagem” quando pretendeu abordar a morte da própria mãe. O que incomoda é que o próprio escritor veja a intensidade do assunto e coloque uma estrutura literária visando compartilhar a sua intimidade com o leitor, que espia por entre a cortina, ansioso pela vulgaridade de uma exibição familiar. O meu desconforto se situa no fato de não considerar isto pulsão criativa, e sim no fato de que o escritor viu, na sua tragédia pessoal, a bela oportunidade de fazer literatura sobre um tema universal. E declare isto, não para angariar simpatia ou repulsa, mas como uma exibição narcisística. Podemos dizer que toda forma artística é uma extensão do narcisismo do seu criador, mas, ainda que respeite esta vontade de brincar com os leitores, receio que o escritor falhou naquilo que é mais importante: a verossimilhança.
Não estou dizendo que o livro seja mau escrito, longe disto. Inclusive penso que a história se constrói mais nos intervalos entre a narrativa e as notas de rodapé, que geram ondas de atrito e tensão, e isto é interessante. Contudo, resta evidente que o autor se refugiou na segurança de um desabafo, transformando suas sensações em uma obra literária, mas que, retirado o suporte do luto pela mãe, não se sustenta sozinho. Pouco se diferencia de um diário e – para situar em uma obra de alcance mundial – perde feio para a veracidade do “Diário de Anne Frank”. O autor deglutiu a emoção e, ao invés de transferir a dor supostamente sentida para o leitor, acabou criando uma falsa confissão ou admissão de culpa. Os leitores conseguem ver o autor e não afastam o livro da sua imagem, simpatizam com a dor não por causa da narrativa, e sim por causa da figura intrometida do próprio criador.
Tenho dúvidas se um livro pode se fundar exclusivamente na figura externa do autor. O importante deveria ser as ações internas, a fluidez da história, as mudanças e os sofrimentos experimentados pelos personagens. Quando o autor coloca o foco sobre si mesmo como parte constituinte da trama, ela acaba enfraquecendo, pois se torna uma imitação de pulsão literária. Ainda bem que a “Poética” de Aristóteles faz coro às minhas declarações, quando afirma:
“A mais importante dessas partes é a disposição das ações: a tragédia é imitação, não de pessoas, mas de uma ação, da vida, da felicidade, da desventura; a felicidade e a desventura estão na ação e a finalidade é uma ação, não uma qualidade. Segundo o caráter, as pessoas são tais ou tais, mas é segundo as ações que são felizes ou o contrário. Portanto, as personagens não agem para imitar os caracteres, mas adquirem os caracteres graças às ações. Assim, as ações e a fábula constituem a finalidade da tragédia e, em tudo, a finalidade é o que mais importa”. (ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. 7a ed. São Paulo: Cultrix, 1997, p. 25).
Sabendo que a emoção foi deglutida e assimilada antes de virar livro, tudo é feito para gerar uma falsa sensação de intimidade. As confissões inoportunas, os rompantes e desabafos, a fúria dos sentimentos, tudo soa falso. O autor pretexta uma pulsão irresistível para escrever. Utilizando a figura de um autor/personagem/narrador, é impossível não ser bem sucedido. Ele utiliza a curiosidade mórbida do público leitor com as suas reações para criar intimidade e, neste aspecto, o leitor é pouco diferente da pessoa que diminui a velocidade do carro para contemplar as vítimas fatais de um acidente de trânsito.
Na literatura contemporânea, é quase impossível dissociar a narrativa da figura do autor. Estamos regredindo na nossa análise: deixamos de ver a verdade de vida contida no texto literário e consideramos mais autêntico o texto que mais se aproxima da vivência do autor. Sabendo disto, o autor se refugia no comodismo de narrar, sob um verniz literário, uma história pessoal, seja de tristeza, separação, angústia, superação, vitória. É a vulgarização do voyeurismo; estamos virando voyeurs da vida de um autor.
Tal fato não deveria me decepcionar, pois é uma das cláusulas do longo contrato de ficção firmado entre autor e leitor. No entanto, em Péter Estérhazy, incomodou-me esta tentativa de brincar com os meus sentimentos, a vontade de usar a literatura não como catarse do sentimento, mas como exploração comercial dele, quase um deboche, uma demonstração de perícia técnica estéril e forçada. Quando vejo a história das suas outras narrativas, deparei-me com um comportamento reiterado: Esterházy escreveu “Harmonia Caelestis”dissecando a sua relação pessoal com o pai e “Uma mulher” foi escrito revelando os bastidores de uma relação amorosa. Não conheço toda a obra dele, e inclusive adquiri o “Uma mulher” para ter certeza desta impressão, mas o indicativo não parece ser muito bom. Ele só consegue escrever sobre aquilo que vivenciou. Não existe criação genuína ou pulsão original; existe a tentativa deliberada de dissecar um sentimento com falsidade e gerar uma leitura confortável. Aliás, quando o autor fala da própria vida em uma forma ficcional, isto é considerado ficção?
No texto anterior que fiz no blog “Leituras do Séc. XXI” (http://leiturasdosec21.blogspot.com.br/search/label/Gustavo%20Melo%20Czekster), reclamei da preferência absoluta da literatura contemporânea pelo narrador em primeira pessoa, que considerei preguiçoso e acomodado. “Os verbos auxiliares do coração” são a epítome desta declaração: o autor anuncia que vai expor as vísceras, mas, na realidade, só revela o seu penteado através de um espelho fosco, quase sem ocultar a vaidade, quase como se dissesse “minha mãe morreu e, olhem só, fiz literatura com isto!”. Talvez minha visão esteja defasada, mas ainda acho mais válida a ficção de um homem que descreve seus sentimentos sobre a morte da mãe sem que referido autor apareça para validar a sua experiência ou – mais relevante ainda – um autor capaz de descrever a morte da mãe sem truques estilísticos e estando com a própria mãe ainda viva, criando para o leitor uma imitação de vida tão forte que espanta pela força. De passagem, recordo da morte de Dora em “Capitães de Areia”, do Jorge Amado, de como ela ganha o status de mãe dos meninos de rua, gerando sentimentos em todos eles, e de como o seu fim acaba sendo uma experiência catártica para o leitor, sem que o próprio Jorge Amado apareça na trama para reforçar a aparência de vida da tragédia vivenciada.
Interrogo-me se esta tendência da literatura atual não seja um grande problema; interrogo-me se estou lendo a vaidade sublime de um autor que se pretende eternizar dentro de um livro ou se estou lendo a representação de vida dentro de um livro. Recordo aqui o sábio alerta de Elias Canetti sobre Sartre: “Sartre sempre se orgulhou e justificou com o fato de se expor. Mas é bastante importante não se expor. Deveríamos recuar e esperar até nos sentirmos arrebatados por dentro. Não deveríamos nos obrigar a dar respostas. Responder não é nada. Responder é falta de liberdade, e, por isso, equivocado.”(CANETTI, Elias. Sobre os escritores. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, p. 171) Não sei se a figura onipresente do autor é uma necessidade da literatura contemporânea; para ser bem sincero, acho que o texto existe apesar do autor e, não raro, se constrói mesmo é no conflito com ele. O que sei, no momento, sem tirar os méritos de construção do livro, é que vi o jogo maléfico feito por Esterházy para me comover – e me decepcionei com isto.

* Texto originalmente publicado no blog O homem despedaçado

Cinco aspectos da literatura de Péter Esterházy

Colaboração de Leila D.S. Teixeira

A palestra proferida pelo Professor Biagio D'Angelo, no último sábado 06 de outubro, dentro do Ciclo de Debates sobre Literatura do Século XXI, foi tão rica e completa que não ouso aqui tentar reproduzi-la. Pretendo apenas mencionar cinco questões, e seus respectivos desdobramentos, que chamaram a minha atenção a respeito de Péter Esterházy, e que me proporcionaram uma leitura mais profunda do livro Os verbos auxiliares do coração. Por uma questão formal, agrupei as questões em blocos, que não necessariamente seguem a ordem utilizada pelo palestrante.

1) A literatura e o projeto nacional

Segundo o Professor Biagio, a obra de Esterházy enquadra-se na renovação ficcional ocorrida em países do leste europeu pós década de 1970. Áustria, Hungria, Tchecoslováquia (hoje, República Checa e Eslováquia), Alemanha Oriental, Polônia, Iugoslávia (em especial, a atual Sérvia) foram berço desta "nova" literatura escrita em idiomas "ex-cêntricos", ou seja, línguas de fora do centro: literatura que a Europa Ocidental excluía dentro de um contexto histórico de quase colonialismo intercontinental. Ingo Schulze, da antiga Alemanha Oriental, foi um dos autores citados como representativo deste momento literário, ao lado de Esterházy.
Esterházy consegue ultrapassar a mera afirmação nacional e cria, por meio de seus livros, uma macro-estrutura estética que ultrapassa as fronteiras da Hungria.

2) A literatura dentro da literatura

Dentre as características da obra de autor húngaro apresentadas pelo Prof. Biagio, está o uso em abundância de citações (ou "textos hóspedes"), de forma direta, como se fossem de Esterházy. 
A grande quantidade dessas citações não permite uma leitura organizada, mas serve como farol para a interpretação do texto. Por meio da farta presença de trechos de outros livros em Os verbos auxiliares do coração, Esterházy estabelece um diálogo com os autores sobre o luto. Tal diálogo dá-se em um âmbito filosófico e teológico, visto que a maioria do escritores "hóspedes" produzem literatura com fortes traços metafísicos ou religiosos.
Este ponto gerou uma série de questões interessantes vindas da platéia, das quais destaco duas.
Na primeira delas, indagou-se o significado da citação central "Sou um metal que ressoa e um címbalo vibrante!". O professor Biagio lembrou que a frase remete às Epístolas de São Paulo aos Corintios (I, Corintios, 13), e que significa que o amor é superior a tudo, que a existência sem amor não faz sentido. Seria uma declaração de amor à mãe por parte de Esterházy? E a citação completa "Sou um metal que ressoa e um címbalo vibrante! Que todos apodreçam. Odeio você" seria uma declaração de amor seguida do repúdio à morte da mãe? Abaixo, transcrevi o trecho completo da Bíblia, para a reflexão.
I Corintios 13
1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.
2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
3 E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
4 O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece,
5 não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6 não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade;
7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8 O amor jamais acaba; mas as profecias serão aniquiladas; as línguas cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9 porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos;
10 mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.
13 Agora, pois, permanecem essas três coisas: a fé, a esperança, o amor; porém, a maior delas é o amor.
A outra pergunta referia-se ao uso do nome Beatriz Viterbo para a mãe do narrador, em Os verbos auxiliares do coração. Biagio recordou que a morte da Beatriz Viterbo do conto de Borges é o que permite ao personagem borgiano encontrar o Aleph. 
A observação do Professor Biagio lembrou-me o que Saúl Sosnowski, no livro Borges e a cabala, citou sobre o significado da letra aleph para os cabalistas:
Para a Cabala, essa letra significa o Ein Sof, a ilimitada e pura divindade; também se disse que tem a forma de um homem que mostra o céu e a terra, para indicar que o mundo inferior é o espelho e o mapa do superior (…)
aleph é o segredo de cima e de baixo, e todos os segredos da fé dependem dele. 
Após a palestra, na esteira do que foi dito pelo Professor Biagio sobre a relação de quase todos autores citados com luto e com morte, a colega Rackel Tambara pesquisou os escritores presentes no prefácio de Os verbos auxiliares do coração e, em comentário ao post do dia  01 de setembro de 2012, elencou as relações de cinco deles com as perdas.

3) A literatura e a não-ficção

Outra característica da obra de Esterházy, apontada na palestra de 06 de outubro, foi o uso intenso de experiências biográficas ou pseudobiográficas do autor. 
O Professor Biagio citou o romance Harmonia Caelestis, "obra-mundo" de "riqueza poliforme", que propõe uma literatura familiar-histórica, isto é, que apresenta a história da Hungria por meio da história da família Esterházy. Lançado em 2000, narra desde a ascensão dos antepassados de Esterházy durante o Império Austro-húngaro, quando Haydn compunha obras dentro do palácio da família, até a privação dos bens familiares com o advento do comunismo.
Mencionou, ainda, Revised Edition (2002), escrito por Esterházy como um posfácio à obra anterior, a partir do choque que o autor teve ao saber que seu pai era um informante da Polícia Secreta (ÁVH) do regime comunista. O livro, sob a forma de um diário, comenta a recém descoberta atividade do pai, bem como o processo de digestão dos fatos pelo filho. Assim como em Harmonia Caelestis, no Revised Edition, a história pessoal de Esterházy é também a história da Hungria que tenta se reconciliar com seu passado.
Corroborando os apontamentos do Professor Biagio, o próprio Esterházy, em entrevista concedida à Folha de São Paulo, em 2011, ao ser questionado sobre o fato de muitos escritores atuais tenderem a levar a narrativa ao limite do ensaio ou da autobiografia, respondeu: "Sim, eu busco não fazer distinção entre ficção e não ficção. E tento extrair tudo da linguagem". E durante a FLIP 2011, afirmou: “A família como gênero, como forma, é muito boa. Todo mundo tem pai e mãe, então o leitor entende. Mas também há desvantagens, pois há um pouco de nostalgia, de kitsch, então temos que lidar com isso”.
Em Os verbos auxiliares do coração, Esterházy afirma já no prefácio o caráter autobiográfico do texto: 
Faz quase duas semanas que minha mãe morreu, tenho que me entregar ao trabalho antes que a necessidade demasiado ardente de escrever sobre ela recue para o mutismo covarde com que reagi à notícia da morte.
(…)
Quando escrevo, escrevo necessariamente sobre o passado (…) 
Faço literatura, como das outras vezes, deslocado e objetificado feito máquina de lembranças e formulações. Mallarmé diz que tudo no mundo existe para se tornar livro. Nem ao menos me envergonho; me conformei com que meu rosto corresponda àquilo que meus livros mostram.

4) A contradição da literatura

A forma que ele dá às notas autobiográficas sobre a morte da mãe é a de um díptico que contém dois diários. Na literatura cristã primitiva, o termo "díptico" refere-se às listas oficiais dos vivos e dos mortos que eram comemorados numa igreja local. Os vivos eram escritos numa das folhas e os mortos, na outra. 
Em Os verbos auxiliares do coração, no primeiro díptico, o lado dos vivos, está o verdadeiro diário de luto, a culpa de quem sobrevive. No segundo díptico, o diário íntimo da mãe. Nem um, nem outro dão conta de recriar a circunstância da morte da mãe ou a dor do luto do filho.
O Professor Biagio disse ter lembrado do Diário de luto, de Ronald Barthes, autor mencionado por Esterházy no prefácio ao Os verbos auxiliares do coração. Naquele livro, Barthes lida com o paradoxo: a necessidade de não deixar o falecimento da mãe cair no esquecimento versus a impossibilidade de a literatura dizer o que verdadeiramente se sente diante da morte. 
A mesma contradição está no Os verbos auxiliares do coração. Se analisarmos, de forma comparativa, o subtítulo e a citação final, teremos uma boa amostra disso.
O subtítulo, Uma introdução à literatura, usa a palavra "literatura" com a conotação de belles-lettres, e, para Biagio, remete ao fato de que a grande literatura se faz por causa de ausências e  de perdas. A morte é a tirania da existência, que anula a história, os fatos. A literatura é a liberdade de recriar o que passou, o que se perdeu.
Entretanto, de forma contraditória, a mesma literatura é incapaz de repor a perda, é inapta a expressar o sofrimento como ele realmente é. Assim, a citação final "um dia vou escrever tudo isso com mais precisão" remete à consciência sobre a imprecisão das palavras. O que deveria ter sido dito não foi, pois indizível.
Da mesma forma, as lacunas deixadas no texto representam a incomunicabilidade do que precisa ser falado sobre o luto e sobre a morte.
A respeito da inaptidão da literatura, Esterházy fala à Folha de São Paulo, na entrevista antes citada:
(Folha de São Paulo) Uma frase recorrente em Os Verbos Auxiliares do Coração é "Toda expressão é suave demais". No contexto, parece dizer que a literatura não dá conta da solidão, da crueldade e da morte.
(Péter Esterházy) As palavras são sempre insuficientes e nós podemos sempre tomá-las como esperança. Mas contra a morte elas não ajudam. Talvez possam servir contra a dor que se sente em relação à morte. Mas a literatura não é um meio de curar a dor, como uma aspirina contra a dor de cabeça. 

5) A classificação literária

Biagio ressaltou que críticos tentam enquadrar o livro de Esterházy no conceito de romance de formação. Concordou com a possibilidade, mas encerrou a palestra com a questão: é preciso, realmente, classificar Os verbos auxiliares do coração?



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Entrevista com Péter Esterházy

Uma das atrações da Flip de 2011, o húngaro Péter Esterházy falou sobre o livro Os verbos auxiliares do coração e aspectos gerais da sua obra para a revista Veja.
Alguns trechos da entrevista:

"Dos sentimentos, não consigo falar. Na língua húngara, não existem verbos auxiliares, então, no título eu me referi a algo que não existe, porque é algo de que não se fala. Por mais que se fale da perda, do luto, nada irá melhorar essa dor. Nada, nem se esse livro tiver sucesso. Quando se obtém sucesso, a vontade primeira é contar para a mãe. Como a mãe não está viva, isso perde o valor."

"O escritor deve ser político mesmo quando não se pode falar de política"

"O leitor tem tanto prazer em ler que ele perdoa os erros do escritor. O bom leitor lê pela mesma razão que respira"

Clique aqui para ler a entrevista na íntegra

Entrevista - Paulo Schiller, tradutor de Os verbos auxiliares do coração

"Na língua húngara, não existem verbos auxiliares, então, no título eu me referi a algo que não existe, porque é algo de que não se fala. Por mais que se fale da perda, do luto, nada irá melhorar essa dor"
Peter Esterházy, sobre a escolha do título Os verbos auxiliares do coração.

No vídeo abaixo, Paulo Schiller, tradutor de Os verbos auxiliares do coração e de Uma mulher, posiciona o autor na literatura húngara e mundial e observa questões sobre o humor e o processo de tradução de suas obras.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

PÉTER ESTERHÁZY e OS VERBOS AUXILIARES DO CORAÇÃO


Anotações de leitura:  Léa Masina
Setembro, 2012

Estou curiosa para saber o que o Prof. Biagio D´Angelo irá nos dizer sobre esse livro, escolhido como uma das mais importantes representações da literatura do séc.XXI.  Para mim, é um estudo meticuloso sobre a dor  humana e uma tentativa de dar significado à literatura. Veja-se que o autor apresenta a obra como uma Introdução à Literatura. Para que serve a literatura, senão para nos fazer pensar sobre a natureza humana, onde dor e alegria, ou dor e felicidade, convivem e se completam? Mas a dor sempre prevalece, eis que a literatura é uma forma de exorcismo ou de auto-elaboração (catártica?) do sofrimento de viver que conduz à morte.

Também é um livro político, onde se lê sobre uma Hungria subjugada por russos que, por sua vez, caçam alemães. Uma Hungria que é a pátria enaltecida e vazia, gravada na memória da personagem. E tudo, no final, são discursos. Há muito o que pensar, muito o que dizer, inclusive com relação ao aspecto gráfico do livro, fascinante, atraente como uma pílula de veneno coberta por glacê de chocolate.

Eu o li neste final de semana e fiquei impressionada. De fato, não há propriamente uma história narrada, mas flagrantes de vida. Confiram!  Nosso encontro é no dia 6 de outubro e quanto melhor o livro for lido, discutido e pensado, mais sucesso terá o nosso encontro!
 
Abraço da Léa

Peter Esterházy lê trecho de Os verbos Auxiliares do coração

No vídeo, o autor Peter Esterházy lê um trecho do seu romance Os verbos auxiliares do coração.


Os verbos auxiliares do coração - Peter Esterházy

Dia 6 de outubro, receberemos o Prof. Dr. Biagio D´Ângelo que nos falará a respeito de Os verbos auxiliares do coração, de Peter Esterházy.
Para saber um pouco mais sobre a obra, que tal ler a resenha de Tiago Pinheiro para o site Meia Palavra?

Peter Esterházy foi um dos nomes mais propagados pela divulgação da FLIP deste ano. Tenho a impressão de que também foi um dos mais entrevistados e talvez o que tenha concedido as declarações mais interessantes (ao lado de valter hugo mãe). Sim, a literatura húngara entrou no circuito brasileiro, diziam alguns slogans. Mesmo? Não, não: um escritor não faz uma literatura… E a escolha da publicação deOs Verbos Auxiliares do Coração torna essa ignorância ainda mais espetacular e até cômica, já que o livro faz citações sistemáticas a um grande número de autores pertencentes à língua húngara, nomes que nem de longe passam por nosso repertório: Péter Hajnóczy, Gyula Illyés, Lászo Komár, Ivan Mándy, Géza Ottlik, Sándor Weöres, etc. Mas isso não é exatamente um impedimento; é sim um convite. Um convite para conhecermos a língua materna de outro. Não à toa o subtítulo do livro é “Introdução à Literatura”. Infelizmente, esse convite é para um funeral: justamente daquela que ofereceu essa língua ao escritor em questão.