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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Uma leitura do contemporâneo

O escritor e mestre em literatura comparada Gustavo Czekster reflete sobre a literatura contemporânea em sua coluna no portal Literatortura. Segue o texto de Gustavo.
(use a caixa de comentários para dar sua opinião sobre esse e outros posts)


Por uma literatura mais feia



Rimel Neffati
Por ossos do ofício, estou lendo muita literatura contemporânea. Não tem sido uma experiência agradável. Quanto mais leio a produção atual, mais retorno aos clássicos. Sinto saudade quase física de ler uma obra que não esteja submetida às normas das políticas editoriais e do lucro fácil. Vontade de ler literatura, e não livros.
Estou cansado de livros bonitos. Sim, é sério. Livros com capas lindas, com editorações fantásticas, com letras e recursos gráficos que são dignos de figurarem em galerias de arte. Em alguns momentos, os recursos são tão fantásticos que chego a me desconcentrar da história. E se existe algo trágico que aprendi é que, quanto mais bonito o livro, mais frágil e inconstante é a sua trama. Se eu quisesse ver uma escultura ou uma pintura, iria a um museu, e não compraria um livro, mas respeito quem mata dois coelhos com uma única cajadada estética.
Se a beleza se limitasse às produções gráficas, seria algo possível de se sobreviver. Sei que as editoras precisam atrair leitores, e fazer capas maravilhosas é parte desta sedução. Não sou tão ingênuo a ponto de achar que a literatura se sustenta sem o mercado e suas tarefas árduas de fascinar e encantar consumidores.
O que me causa desconforto é que os livros também possuem conteúdos lindos: as histórias são perfeitas, milimetricamente corrigidas e irretocáveis. Quem sabe técnica literária ou teoria consegue ver com clareza as escolhas narrativas do autor, o motivo da personagem principal ser uma criança ou um rapaz da classe média, a razão do tempo da narrativa ser no presente ou no futuro, a escolha do cenário urbano ou rural. São livros que não mexem com o leitor e o respeitam, talvez até demais. Ler também é ser desafiado pelo autor e pela visão do mundo que ele descreve, e os livros atuais evitam confrontar o leitor, como se ele fosse feito de cristal. São obras que morrem de medo do público, temendo que ele se desconcentre em alguma linha, em alguma troca de parágrafo, em algum desagrado com o fim abrupto de uma frase.
Então chegamos no pior problema de todos. Eu chamo de preguiça autoral, mas pode ser considerado como uma espécie de covardia. Os escritores tecem narrativas burocráticas e sem grandes novidades criativas. Entre contar a história que querem e aquela que o mercado deseja, optam pela segunda alternativa e se acomodam. Suas tramas são perfeitas e edificantes; impossível chegar ao final de um livro sem que alguma lição de vida não encha nossos olhos de lágrimas. Lembrando daquilo que falou sobre catarse e epifania, Aristóteles levantaria para aplaudir de pé, sem sufocar os soluços. As histórias são lindas, e qualquer ser humano se sentiria mais elevado por experimentar sentimentos tão dignos.
No entanto, isto não é arte. O que está matando a literatura contemporânea é a beleza. O excesso de beleza transforma o mundo todo em um local anódino e sem sentimentos. De tanto tentar agradar o público com uma overdose estética representada pelo aspecto físico do livro, acrescido de construções técnicas nada ousadas e de tramas superficiais, os livros estão todos iguais e sem alma. Facilmente esquecíveis. São cascas desprovidas de essência, e não existe nada mais irritante do que ler uma história em que se percebe que o autor estava mais preocupado com as susceptibilidades do leitor do que com a sua trama.
Nietzsche abordou este tema, quando, discorrendo sobre a arte da alma feia, escreveu: “Traça-se à arte limites muito estreitos, se se exige que nela só se possa exprimir a alma ordenada, moralmente equilibrada. Como nas artes plásticas, assim também na música e na poesia há uma arte da alma feia, ao lado das belas almas; e os efeitos mais poderosos da arte, quebrar as almas, mover as pedras e transformar os animais em homens, talvez tenha sido precisamente essa arte que mais os conseguiu”.
A literatura não foi feita para ser bonita. A arte necessita do feio, do desagradável, do grotesco, do repugnante, do malfeito. A beleza eleva o espírito, mas a feiura nos fala a verdade. Qualquer um pode escrever um livro lindo, mas poucos conseguem fazer um livro feio e verdadeiro. Talvez por desconhecimento de conceitos básicos, alguns autores buscam o feio da forma mais primária possível, qual seja, tratar de temas revoltantes e de fácil apelo popular, encher as obras de palavrões e descrições chulas de sexo ou distorcer a linguagem com a utilização de termos usados no dia a dia. A simples ideia de usar imagens ou itens feios para fazer uma “arte feia” envolve uma estilização do próprio conceito de beleza e, pior ainda, um viés muito pessoal daquilo que o autor pensa ser feio. Toda vez que leio obras que tentam abordar temas considerados feios me passa a desagradável impressão de que, ao tentar transformar o feio em arte, ele se torna esteticamente apreciável e, por conseguinte, falso como uma nota de três reais.
A literatura feia não trata de assuntos feios. É fiel à sua trama e à visão de mundo do autor; ela desconsidera o leitor, quer afundar as mãos na realidade e mostrar a angústia que se esconde atrás da fricção de cada átomo que forma o mundo. Charles Baudelaire é horrível; os poemas dele são detestáveis e, por isto mesmo, inesquecíveis e brilhantes. Choderlos de Lactos escreveu um livro abominável, colocando toda a podridão da alma humana atrás de adjetivos e cenários de extrema beleza. William Faulkner possui uma linguagem irritante, mas, quando a compreensão falha, alguma corda desconhecida no mais fundo do leitor consegue decodificar aquele amontoado de letras e uma sinfonia poderosa surge no meio do deserto.
Os escritores (e o mercado) superestimam o leitor, dando-lhe mais importância e carinho do que ele merece. O leitor não sabe o que quer; prova disto é que boa parte das maiores obras de arte só foram reconhecidas depois da morte do seu criador. O autor nunca pode afastar o olho da sua trama, não pode deixar ela escapar, por mais sedutores que sejam os gritos e chamados dos leitores que lhe cercam. A literatura feia é aquela que não dá atenção alguma para o leitor: ela não é César entrando em Roma em triunfo, coroa de louros sobre a cabeça, recebendo aplausos e gritos de júbilo; a verdadeira literatura é o anônimo centurião que, sujo de barro e de sangue dos inimigos, arranca a cabeça do rei adversário com um golpe do gládio e, com este gesto, vence a guerra inteira.

terça-feira, 25 de março de 2014

Propostas para 2014

                

Em 2012 e 2013, com o apoio de diversos intelectuais e amigos, desenvolvemos o curso “Leituras do século XXI”, que consistiu na seleção de obras que seriam discutidas uma vez por mês, após palestra de professores de literatura altamente capacitados. 
Nesses dois anos, a proposta inicial fui cumprida: leram-se livros de diferentes procedências, partindo do pressuposto de que uma das principais características do século em que vivemos é, precisamente, a expansão do universo cultural. Até então, quase tudo o que líamos era mediado pelo eixo eurocêntrico. Desse modo, autores e livros de outras culturas eram selecionados e traduzidos quase sempre para o francês e o inglês e, depois, exportados para outros países do mundo. Enfim, a Europa e depois os Estados Unidos ditavam o que o mundo ocidental deveria ler. Esse quadro transforma-se aos poucos a partir do final dos anos XX.
Conforme foi visto no decorrer das palestras, o século XXI está alterando os rumos e o próprio conceito das artes. Noções recentes, de diversos teóricos, sociólogos e filósofos - como modernidade líquida, de Zygmund Bauman, e Contemporâneo, de Giorgio Agamben, além das avaliações histórico-sociológicas de Eric Hobsbawn - serviram de pressupostos para auxiliar no entendimento dessas mudanças.
Agora, em 2014, atendendo a pedidos, organizamos um curso voltado especificamente para a literatura brasileira no século XXI. Contando com a colaboração do Professor Doutor Ricardo Barberena, organizei um novo programa. Antes disso, porém, no mês de março, encerramos a primeira etapa do curso, convidando um tradutor para abordar uma obra traduzida diretamente do texto original, norueguês. Com a palestra de Guilherme Braga, sobre Gaute Heivoll, autor do romance Antes que eu queime, tornou-se claro para todos que a importação cultural é muito mais do que uma transposição de discursos.
É preciso acrescentar que as reflexões e os estudos que embasaram o curso “Leituras do século XXI”, do qual faz parte a proposta de 2014, foram fundamentais para a organização do livro Por que ler os contemporâneos? autores que escrevem o século XXI. Esse livro, espécie de dicionário de autores, foi organizado por mim e pelos escritores Daniela Langer, Rafael Bán Jacobsen e Rodrigo Rosp. “Uma hacatombe na cena provinciana” – segundo o escritor Rafael Jacobsen – o livro consiste num roteiro que apresenta cem autores através de verbetes, onde suas obras são destacadas e seguidas por uma pequena resenha. Para isso, contamos com o trabalho de cem intelectuais diferenciados, que se dispuseram a colaborar nessa elaboração.
Nada impede que em 2015 retornemos à proposta inicial. Mas, neste momento, optamos por olhar para dentro, observar o que vem sendo produzido no país a partir da primeira década do século. Dez anos é muito pouco para fixar tendências, mas nossas suposições vão sendo confirmadas. E, como os interessados poderão conferir, prolifera a diversidade de temáticas e de formas.

Com isso, pretendemos contribuir para divulgar alguns dos melhores momentos da literatura contemporânea, promovendo trocas entre escritores e leitores e apreendendo novas formas de imersão no literário.

Profa. Dra. Léa Masina

sábado, 27 de abril de 2013

A literatura à sombra do contemporâneo



Contribuição de Gustavo Melo Czekster


Soa como um interessante paradoxo que, para chegarmos à literatura contemporânea, estejamos privilegiando o “contemporâneo” da expressão e nos esquecendo da “literatura”.  Muitas apreciações sobre o contemporâneo surgem, mas, quando ligadas à arte literária, o conceito parece fugidio, impreciso, instável – uma nuvem sustentando-se no vento. Como em toda expressão, existe um espaço intersticial entre as palavras “literatura” e “contemporânea”, uma zona de confluência e atrito, área que se situa na fronteira do limiar e no limiar da própria fronteira. Submetida à vertigem do atual e do feérico, a literatura consegue manter as suas características em um mundo que privilegia a não-especificidade e a ausência de definições? Ao final da palestra do professor Ricardo Barberena, realizada no dia 06 de abril de 2013 na abertura do seminário “Leituras do Século XXI”, não foram poucos os que saíram perplexos e questionando o próprio fazer literário: dentro da fluidez do contemporâneo, um quadro pode ser uma obra literária? A fotografia faz parte do texto ou é um item agregado a ele? Os significantes da fotografia acrescentam, diminuem ou se confrontam com os significantes da literatura? O contemporâneo aceita tudo que não seja conceituável, mas a literatura também tem o mesmo movimento de concordância ou se mantém aferrada no seu campo de atuação? Em qual momento a literatura deixa de ser literatura e vira outra forma artística?
Há muitos anos, quando estava no Mestrado em Letras da UFRGS, na área da Literatura Comparada, esta foi uma dúvida que muito afligiu os meus colegas, assunto constante de debates na aula com continuação durante os cafés: se a Literatura Comparada aceita tudo que seja intertextual e interdisciplinar, qual o momento em que atingimos o máximo do seu esgarçar, aquele instante em que a literatura incorporou tantos elementos que perdeu o rumo da própria existência? É uma questão sem resposta óbvia. No entanto, para dormirmos tranquilos, convencionamos uma explicação para tal angústia: um mínimo de características específicas e metodológicas é imprescindível. Por mais livre e sem rumo que a literatura aparente trafegar, ainda existe uma série básica de elementos que afirmam a sua presença.
O mesmo dilema ressurge na definição do que seja “literatura contemporânea”. Como uma criança que aprende a abrir o pote do melado e se lambuza até o limite da fartura, os escritores imaginam que a literatura não possui mais limites formais dentro do mundo moderno. Desta maneira, acabam mergulhando no experimentalismo e na ruptura dos limites de um texto literário, sempre sob a justificativa de que o contemporâneo permite a adoção de qualquer forma. Então, os livros podem fundir texto e imagem, teses de doutorado podem ser obras com laivos de ficcionalidade, ensaios podem ter linguagem poética. Soa como um excitante mundo de possibilidades a serem exploradas. No entanto, apesar do bravo mundo novo que se descortina, deve-se caminhar com prudência pela estrada da ruptura. Afirmar a excelência de qualquer produção artística e a sua validade sob o questionável argumento de que representa a visão do mundo contemporâneo é uma defesa inócua. Ou a obra existe e basta por si só ou ela fracassa no seu propósito estético; não existem meios termos ou colocações de que “o futuro será capaz de entender a produção atual”. Nem toda ruptura é sinal de novidade, nem toda desobediência é original. Muitos daqueles que se escondem atrás do escudo de “serem contemporâneos” (com todas as implicações que esta constatação implica) aparentam estar transferindo responsabilidades e ressignificação da sua própria produção artística para um espectador futuro. Ou seja, uma simples transferência de responsabilidade de interpretação para um espectador ainda não existente.
Para algo que começou na verbalidade e acabou se condensando na estrutura física de um livro (e não podemos esquecer o debate atual sobre a mudança para o formato eletrônico), a literatura já vivenciou várias peles. Considerando-se que as primeiras formas literárias não passavam de desenhos em cavernas, podemos questionar o contemporâneo e a sua afirmação de ser original a incorporação de imagens em textos literários. Não há nada de novo sob o sol. Talvez exista uma diferença na apreciação estética, como bem destacado por Walter Benjamin no seu “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, mas não suficiente para agregar a pecha de novidade. A literatura existe apesar do contemporâneo, que nada mais é do que um marco ilusório. O professor Barberena muito bem destacou que qualquer pessoa pode se considerar contemporânea a Shakespeare ou a Cervantes se colocar os dois autores dentro do seu espaço crítico. O espaço de cada um é a área do contemporâneo.
Mais um motivo para voltarmos os olhos para a especificidade da literatura. Em “A Poética da Prosa”, Tzvetan Todorov inicia um capítulo afirmando, de forma provocante, que a literatura precisa ser tratada como literatura. Em seguida, desconstitui esta ideia, afirmando que é um lugar comum e um paradoxo, pois a junção da mesma palavra como sujeito e predicado de uma frase não produz nenhum sentido. No entanto, podemos desconsiderar o paradoxo semântico se considerarmos uma reescritura tal como “a literatura precisa ser tratada como Literatura”. É algo que falta neste mundo contemporâneo, que deseja se apossar da literatura e transformá-la em alguma outra coisa: a ideia de que uma expressão artística pode possuir ou prescindir de inúmeras características, mas não pode nunca perder a sua essência. Tratar a literatura como qualquer outro meio de expressão é dar as costas para a própria Literatura.
Na sua palestra, o professor Barberena, utilizando Roland Barthes a título de suporte teórico, afirmou que, dentro de cada texto, existem inúmeros outros textos. Para amparar a sua exposição, foi utilizado o livro “Ó”, do artista plástico e escritor Nuno Ramos. Um livro inclassificável pede uma abordagem teórica diferenciada, e o professor revelou a aproximação crítica que fundiu teoria, literatura e fotografia em uma nova interpretação da obra. Confesso que não li “Ó”, mas, a julgar pelos trechos apresentados como provas do contemporâneo, pareceu-me um livro mais fundado no conceito do que no próprio texto. O recorte de análise deixou claro que não estávamos diante de uma obra literária: as alusões ao rompimento da forma do livro, ao livro como instalação artística, ao fato do escritor estar mais preocupado com o aspecto plástico da história do que com a narrativa, deixam entrever aquela que seria uma das características mais atraentes de “Ó”, a sua impossibilidade de ser classificado ou definido.
Impossível não se perguntar – e com a devida dose de inquietude - se a literatura é feita com ideias ou com um texto, se o mais importante é o conceito subjetivo a ser transmitido pelo autor ou as palavras que formam a história. Assim como na arte plástica, Nuno Ramos pressupõe um leitor/espectador disposto a interagir com a obra, mas não necessariamente com as palavras. Pode-se dizer que as palavras se tornam parte da obra, e não mais o seu significante. Pareceu-me mais uma obra conceitual em que Nuno Ramos tentou romper as estruturas da Literatura e acabou resvalando para o outro extremo, onde um livro deixa de ser obra literária e se transforma no preâmbulo da apresentação de um conceito, como os cartazes que apresentam ou explicam quadros, fotografias, exposições.
Não sei o que é aquilo que Nuno Ramos apresentou em formato de livro, mas não creio que seja literatura. Pelo menos não me tocou desta forma. Contudo, posso dizer com certeza que é contemporâneo. E esta discrepância entre o “literatura” e o “contemporânea” foi o ponto que mais se destacou na palestra. A literatura acabou sendo questionada e, por isto mesmo, levantou-se em própria defesa. Chamou atenção que as perguntas da plateia se concentraram na obra plástica do artista Nuno Ramos, não na validade daquilo que ele convencionou chamar de livro. Existiu um afastamento do conceito de literatura e um ingresso no campo da arte plástica. A discussão da plateia não se estabeleceu sobre as palavras ou sobre o livro de Nuno Ramos, mas sobre os conceitos expostos nas suas obras como artista. Em alguns momentos, sentiu-se que o encontro versava mais sobre arte plástica do que sobre literatura. Em qual momento o livro deixa de ser livro e se transforma em uma instalação? Quando não se trata mais do texto, e sim da imagem, da sua concepção.
Sempre encaro com suspeita pessoas que se dizem vanguardistas e, na sua fúria iconoclasta, acabam por se transformar em conservadoras. O avesso do avesso se torna o direito. Tornar-se inclassificável não é o mesmo que ser contemporâneo, é simplesmente virar uma nova categoria imbricada. Não vou entrar no pantanoso conceito do que seja literatura, pois sou incapaz de defini-la, um olhar para os livros revela gigantes como Sartre, Mallarmé, Jakobson e Genette que se debruçaram sobre este assunto. Mas também não vou para a conclusão simplista de Compagnon, que, após tratar dos múltiplos conceitos de literatura, preferiu colocar todos os gatos dentro de um mesmo saco e dizer que literatura é aquilo que as pessoas querem que seja literatura. Assim como a liberdade para Cecília Meirelles, literatura é tudo aquilo que não sabemos definir, mas que sabemos o que é quando nos encontramos diante dela. Prefiro pensar como Maurice Blanchot: a literatura – e, por conseguinte, a própria linguagem - é uma caminhada na direção da morte, pois é neste movimento da sua impossibilidade plena de existência que ela acaba se fundamentando. Ainda assim, a perda da especificidade do fazer literário, em benefício de um duvidoso princípio contemporâneo, revela que a literatura pode se transformar em outras coisas, perdendo a sua expressão e força. Talvez seja o momento de retomar a discussão sobre o que é a literatura e quais são seus limites, ainda mais agora, quando as definições múltiplas de contemporâneo ameaçam submergir todas as discussões neste tsunami conceitual.
Não deixa de ser estranho que, entre todas as pessoas, eu esteja tratando do tema “literatura contemporânea”, justo eu, que não acredito no contemporâneo, que penso nele como algo que, assim que se alcança, já se tornou história. É mais fácil capturar uma ninfa do que ser contemporâneo. Mas eu acredito na literatura. Assim como Todorov, acredito que “os seres humanos precisam se assegurar de sua sobrevivência material, obter reconhecimento social, gozar dos prazeres da vida; eles também procuram, porém, de maneira menos consciente, mas não menos imperiosa, encontrar em sua existência um lugar para o absoluto”. Eu acredito que a literatura seja uma forma dos seres humanos encontrarem os seus próprios absolutos, o seu lugar no mundo. Só espero que, nos debates sobre o contemporâneo e as suas implicações na literatura, não façamos como a mulher do dito popular, aquela que tocou fora o bebê e ficou com a água do parto. Mais importante do que ser e soar contemporâneo, é tentar tocar o imanente com palavras. Para isso existem escritores, para isso existe a Literatura.


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Gustavo Melo Czekster é Mestre em Literatura Comparada pela UFRGS e escritor, autor do livro "O homem despedaçado" (editora Dublinense).

O que é ser contemporâneo - Giorgio Agamben



Caros amigos, sugiro retomar a primeira palestra do nosso curso e, conforme sugeriu o professor Ricardo Barberena, pensar o que é o contemporâneo. Tudo pode ser controvertido, refutado, aceito plenamente ou recusado: aceitamos o desafio de percorrer novas trilhas, abrir novos caminhos, com direito a avanços e recuos. Minha sugestão é: então, vamos lá! A leitura do texto abaixo (aba do livro de Agamben) é sugestiva e estimulante! Boas leituras para todos!

Para Giorgio Agamben, o contemporâneo que se pode entrever na temporalidade do presente é sempre retorno que não cessa de se repetir, portanto nunca funda uma origeme, com isso, se aproxima da noção de poesia. Por isso, Agamben (...) recorre ao poema, de 1923, intitulado O século , do poeta Osip Mandel ´Stam, para novamente enunciar sua tese de que a poesia define-se por ser retorno. Diz-nos Agamben: “ Não apenas a época-fera tem as vértebras fraturadas, mas vek, o século recém-nascido, com um gesto impossível para quem tem o dorso quebrado, quer virar-se para trás, contemplar as próprias pegadas e, desse modo, mostra seu rosto demente.” A poesia, portanto, é sempre retorno, mas um retorno que é adiamento, retenção e não nostalgia ou busca por uma origem; é um caminhar, mas não é um simples marchar para a frente é um passo suspenso. (...)

Para Agamben, a poesia é esse movimento do olhar para trás operado no poema e, portanto, um olhar para o não-vivido no que é vivido, tal como a vida do contemporâneo. O voltar-se para trás, suspender o passo, ver o escuro na luz, entrever um limiar inapreensível entre um ainda não e um não mais e compreender a modernidade c omo imemorial e pré-histórica são algumas das fraturas, das cisões no tempo com as quais o sujeito, o poeta, tem que lidar.

Profa. Dra. Léa Masina

PALESTRA DE ABERTURA 2013: PROF. DR. RICARDO BARBERENA

QUESTÕES DA PÓS-MODERNIDADE: A NOÇÃO DE CONTEMPORÂNEO

Na manhã de sábado, 6 de abril, aconteceu a palestra de abertura dos Seminários Leitura do séc. XXI 2013.
Ouvimos o Prof. Dr. Ricardo Barberena, que falou sobre a noção de contemporâneo e apresentou a leitura da obra Ó, de Nuno Ramos. 
Duas questões serviram de introdução para a fala de Barberena. 


Por que falar de autores do século XXI?
O livro “Ó”, do artista plástico e escritor NUNO RAMOS, foge às tipologias habituais que se relacionam à forma (romance, conto, novela, etc) e mesmo às classificações genéricas de narrativas ou líricas. Foi objeto de premiações nacionais, dentre as quais o prêmio PORTUGAL TELECOM (2009).

O QUE É SER CONTEMPORÂNEO?  Ser contemporâneo de quem?
Segundo Agamben trata-se de uma atitude crítica, não mais de uma relação entre sincronia e diacronia. O contemporâneo é o intempestivo, uma “vértebra quebrada no dorso da história“, conforme Nuno Ramos. Essa noção advém das colocações de Walter Benjamin e antes dele, de Nietsche. Não se trata de uma questão ontológica ou apriorística, mas de uma atitude crítica de discronia. Essa atitude impede o tempo de ser composto.
Pode-se falar também de uma visão no escuro, na ausência da luz, quando o que se obtém é um produto da retina.
Os contemporâneos são interpelados pelo escuro de seu tempo. Recebem no rosto o facho das trevas que provém do seu tempo. Pode-se falar numa “visão crítica” que permite olhar as trevas. Os contemporâneos são raros: trata-se de uma questão de coragem para desalojar o “status quo” vigente. Isso implica ir contra a consensualidade e as ideologias.









sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Mia Couto no Brasil (e mais Leituras do séc XXI em 2013)

Aproveitando a visita de Mia Couto no Brasil, adiantamos, com muita satisfação, que os encontros de Leituras do Séc. XXI já estão sendo organizados para 2013. Peça fundamental no cenário da literatura contemporânea, o autor moçambicano fará parte da lista de leitura.

Vamos comemorar? Segue a colaboração da Profa. Dra. Léa Masina e sua leitura de "A confissão da Leoa".

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“A confissão da Leoa” (2012), último romance do escritor moçambicano Mia Couto, representa o que, teoricamente, a crítica considera narrativa pos-colonial. Nele, o escritor aborda a relação entre culturas em processo de hibridização, resultante das relações entre colonialismo e imperialismo. Uma das características dessas narrativa s é tentar exprimir, mediante a língua do colonizador, uma percepção mítica da vida, fortemente telúrica e regionalizada – quase tribal, eis que a língua loca é ágrafa. Isso caracteriza grande parte das obras de Mia Couto . O escritor sabe que o homem é um ser primitivo, próximo à terra e fortemente preso aos seus instintos primevos. Natural da Beira, em Moçambique, viveu desde cedo as fronteiras entre as culturas portuguesa e africana, vindo a reconhecer-se como um negro de alma, com pele de branco.
No romance, cujos episódios giram em torno da caça a leões matadores que atacavam de modo sistemático a aldeia de Kulumani, o horror de um corpo de mulher devorado pelas feras vai, aos poucos, cedendo lugar à reflexão sobre a natureza dos homens. São os homens de dentro da aldeia – de dentro da casa – as verdadeiras feras que matam impiedosamente as mulheres desde que elas nascem. Mães e filhas são violentadas de modo atroz, têm suas vozes caladas, são mortas em vida, e seus sonhos se desfazem ante uma ancestralidade terrível que conduz e gera comportamentos tribais.  Tudo porque só nos primeiros tempos Deus era mulher...  Esse conflito está delineado na visão de mundo da personagem Mariamar, cuja voz ecoa por muitos capítulos, alternando-se com a de Arcanjo Baleiro, o caçador de leões. Através dessas e de outras personagens, tradições e expressões culturais não-ocidentais dão significado ao contexto, destacando questões como raça e etnia na dupla voz dos narradores e do escritor que acompanha a caçada.
Heterogeneidade, diversidade, diferença são questões que ressaltam das narrativas de Mia Couto: de um lado, a cultura nativa, com sua crença na identidade do homem e da natureza, que se lê na referência aos provérbios e ditos africanos; de outro, o modelo de pensamento ocidental , o português,  e ainda o dos “assimilados”, já frutos de uma cultura híbrida.  A narrativa flui, portanto, enquanto memória recente e consequência involuntária, coexistindo sem fronteiras entre o visto, o sentido e o imaginado.
Assim como em outras narrativas do autor, em “A confissão da leoa” recria-se o mundo da magia, que precede à realidade e faz com que se apreendam os sentimentos das personagens de modo simultâneo e entrecruzado. Não é a intriga o que entretém o leitor, subjugando-o ao livro. Interessam as questões que se desencadeiam em planos distintos e se reúnem no plano do texto: os deslocamentos das personagens em seu culto ao mundo natural e em sua visão particular da vida e da morte.
Mais do que a história de um possível amor entre Mariamar e Baleiro, Mia Couto está a narrar uma visão de mundo em que as fronteiras se demarcam e se diluem, e questões como independência, democracia, legitimidade, pertencimento, que ocupam o pensamento ocidental, transformam-se na visão das personagens em suas igualdades e diferenças. A caça aos leões que atacam e matam mulheres nas aldeias, mais do que metáfora, é a representação concreta do que ocorre na vida das pequenas comunidades escravizadas por modelos culturais arcaicos e seviciadas por séculos de colonização.  Também a loucura é um componente essencial para se compreender a extensão da tragédia do colonizado: Romualdo, o irmão de Baleiro, é vítima da violência assimilada pelos ancestrais e posta em cheque no confronto com a cultura do colonizador. Representação da diferença, Romualdo é, como Arcanjo Baleiro, Mariamar, Haninfa e tantos outros, vítimas de uma guerra interna, que o escritor deixa que aflore à superfície do texto.

Léa Masina, maio de 2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Em um mundo descentrado


Contribuição de LÉA MASINA para os debates sobre as literaturas do século XXI: In: SELDEN, R. et all. La teoria literaria contemporânea.

Para alguns, o pós-modernismo indica uma mercantilização deplorável de toda a cultura e a perda da tradição e dos valores, encarnados no séc. XX de forma decisiva pelas obras modernistas; para outros, ele comporta uma liberação da ortodoxia conservadora da alta cultura e uma dispersão muito bem acolhida da criatividade em todas as artes e nos ovos meios de comunicação, abertos agora a novos grupos sociais.

Há autores que sugerem listas de notas pós-modernistas relacionadas (e opostas)  ao modernismo, dentre as quais a difusão do ego; participação do leitor – espectador; o fato de a arte converter-se em algo comunitário, opcional, anárquico. Ao mesmo tempo, a ironia se transforma em radical, um jogo que se esgota em si mesmo, a entropia do significado.  Em oposição à experimentação modernista, os pós-modernistas produzem “estruturas abertas, descontínuas, improvisadas, indeterminadas, aleatórias". Também recusam a estética  tradicional de beleza e de unidade. Fazendo coro ao que diz Susan Sontag, Hassan, por exemplo, concorda que os pós-modernistas estão “contra a interpretação”.

A experiência pós-moderna está amplamente sustentada para interromper o profundo sentido de incerteza ontológica moderna. A comoção humana até o inimaginável (poluição, holocausto, a morte do indivíduo) desemboca em pontos de referência fixos. Nem o mundo nem mesmo um indivíduo possui  ainda unidade, coerência, significado. Estão radicalmente “descentrados”.

domingo, 26 de agosto de 2012

Notas sobre o contemporâneo

Colaboração de Andrea Kahmann

Este artigo (na falta de definição mais adequada, vou chamá-lo assim) é um compartilhamento de angústias que têm permeado os debates sobre as “Leituras do Século XXI” promovidos pela Profª Dra. Léa Masina por meio do Centro de Estudos Literários, em Porto Alegre. E pretendo iniciá-lo com um fato que presenciei. Afinal, se a “autoficção” é característica tão indubitável da malha teórica sobre literatura contemporânea, nada mais justo que se garantir a prerrogativa de invocar experiências pessoais, também, à crítica sobre a ficção, ainda que eu não tenha aprendido o nome que se dá a isso.

Na época em que eu lecionava na Universidade Federal da Paraíba, lançou-se a ideia de compor uma coletânea sobre literatura paraibana. E as paixões inflamaram-se em debates sobre a possibilidade de se incluir escritores como o “samparaibano” Amador Ribeiro Neto, o “pernambucampinense” Astier Basílio, o “paraibanucho” Lau Siqueira e outros que, talvez por falta de vocação sonora, não conseguiram cunhar para si uma justaposição de gentílicos capaz de soar agradável. O tema surgiu na minha sala de aula e iam longe já os argumentos de que “apenas os nascidos na Paraíba eram paraibanos”, quando um gaiato levantou o braço: “Professora, Clarice Lispector não nasceu na Ucrânia? Ôxe, e por que raios, então, eu tive de estudá-la para o vestibular?”. Pergunta debochada, mas pertinente. Na busca de uma solução “justa” para o impasse, alguém propôs a alternativa legalista: seriam aceitos textos de escritores que estivessem morando, ininterruptamente, há mais de 15 anos na Paraíba – a mesma lógica para processos de naturalização, ora. Comentei o caso na sala dos professores e uma colega de francês adorou a ideia. Mais: disse-me (num tom entre o desafio e a ironia) que vinha, há tempos, cogitando incluir Cortázar na ementa do curso de Literatura Francesa. E fui-me embora para Pasárgada sem saber como se encerrou a peleia por lá.

As conclusões deste episódio são óbvias, mas necessárias. Não é de hoje a perspectiva de que a literatura não deve ser enquadrada nas “caixas de aço” (retomando Barberena) dos lugares e dos não-lugares (esta expressão é de Jameson). E, apesar de antiga, essa querela pelo lugar da literatura ainda suscita discussões apaixonadas e tentativas reiteradas de sistematização a partir do território (recordo, aqui, o projeto dos Atlas literários promovido pelo IBGE). Na falta de solução, temos a tendência a considerar como “é nosso” aquilo que nos interessa e rechaçando aquilo que não nos convém, de forma a criarmos, para os localismos, a versão reduzida do “nacional por subtração”. Há tempos fazemos isso. Afinal, não é tão moderninha assim a figura do viajante, do desterrado, do que vive nas frinchas e no trânsito entre culturas. Walter Benjamin, em O narrador, já ponderava: “Quem viaja tem muito que contar, diz o povo, e com isso imagina o narrador como alguém que vem de longe. Mas também escutamos com prazer o homem que ganhou honestamente sua vida sem sair do seu país e que conhece suas histórias e tradições”[1]. O narrador marinheiro comerciante e o narrador camponês sedentário, para usar as expressões de Benjamin, sempre conviveram e seguem convivendo no mesmo sistema literário, ainda que, em determinadas épocas, façamos festinhas a um e procissões ao outro.

No último Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), em 2011, Rosana Corrêa Lobo, doutoranda pela PUC-Rio apresentou algumas ponderações sobre a coletânea “Amores Expressos”. Nesse trabalho, Rosana sintetizou as polêmicas que envolveram o projeto publicado pela Companhia das Letras, resultarando em debates acalorados na Folha de São Paulo e blogs de literatura. Afinal, que critérios nortearam a escolha dos autores? Ser amigo do mentor do projeto? E por que usar verbas públicas (provenientes da Lei Rouanet) para financiar a viagem e a estadia nas cidades escolhidas? Será mesmo preciso estar num determinado lugar para escrever sobre ele? Sem querer pôr mais lenha aos debates, a pesquisadora concluiu: “O que pretendo considerar é que se hoje a “patrulha” – comandada por jornalistas, editores, blogueiros e escritores contemporâneos - questiona os projetos literários no que diz respeito a quem pegou ou quem perdeu o “bonde”, se o bonde tinha muitos benefícios ou não, se era movido a dinheiro público ou não, em outros tempos, no século XIX e início do XX, a patrulha monitorava a origem do bonde, se o bonde ia percorrer ‘autênticas’ paisagens brasileiras ou não, se ele transportava índios, negros, mestiços, ou seja, se o bonde tinha a cara do Brasil”[2].

De fato, Rosana, o bonde do Brasil parece não suscitar tantas polêmicas porque acompanhamos essa novela de dentro de casa. Já superamos a crise alencarista depois de muita terapia. Ninguém duvida que Clarice Lispector seja digna representante das letras brasileiras. Contudo, nada é tranquilo quando se discutem as tintas regionalistas. Essa tensão permanente entre global e local, entre ser do mundo ou ter raízes, esse meter-se nas frinchas mas estar permanentemente “fora do lugar”, é herança daquele pós-moderno cunhado pela década de 60 e que as nossas leituras do século XXI herdaram e reinventaram com novas cores. Referi o exemplo da Paraíba, mas, aqui nos pampas, também nós ficamos ruminando se a literatura é gaúcha, gauchesca ou sul-rio-grandense. Afinal, a literatura é “nossa” quando feita pelos nascidos no Rio Grande do Sul e que a escrevem não importa de onde (incluindo, então, o “paraibanucho” Lau Siqueira)? É a que trata sobre temas que consideramos afeitos ao Rio Grande do Sul, não importa por quem tenha sido escrita (por exemplo, o uruguaio Mario Arregui)? É aquela escrita no Rio Grande do Sul, não importa onde tenha nascido o escritor (caso de alguns livros de Daniel Galera)? Ou se, por fim, é aquela que transita pelo Rio Grande, não importando suas origens (momento em que seríamos forçados a reconhecer como literatura gaúcha todas as traduções que influenciam esse sistema literário)? Teremos de aplicar, também aqui, as regras da naturalização, das duplas nacionalidades, ou uma junção estruturalista e matemática de regras para definir a partir de quando estaremos tangenciando essa literatura localista que insiste em proclamar que tem história e características peculiares? E será que o local da cultura importa mesmo tanto assim? Teóricos pós-colonialistas assentiriam graves a essa pergunta, mas isso é tema que se há de tratar nos divãs da afirmação identitária.

Voltando à pesquisa apresentada na Abralic, concordo com Rosana quando ela argumenta que há uma via comum entre todas as narrativas de “Amores Expressos”: “Neste mundo pós-utópico, o que vemos nestas narrativas são essas personagens afundando, afundando, sem nem sequer pedirem socorro pois a esperança foi substituída por um presente trágico, hostil, empoeirado e impositivo. Personagens deslocadas, que veem se desfazerem seus vínculos com a terra natal, marcados pelo sentimento de não-pertencimento a qualquer espaço, a qualquer esfera de identidade palpável e que buscam em vão um lugar mais habitável”[3]. Convencionou-se designar que é um tema pós-moderno esse desencaixe. A aceleração generalizada dos tempos de giro do capital, segundo Harvey, induziu à dinâmica de uma sociedade do descarte: do ser capaz de jogar fora não somente bens de produção, mas também “estilos de vida, relacionamentos estáveis, apego a coisas, edifícios, lugares, pessoas e modos adquiridos de agir e ser”[4]. O descentramento do sujeito[5] implicou não apenas em algumas rupturas com as tradições, mas o recalque (em acepção freudiana) do sentir. Assim, postula Jameson, o poder oculto da tradição pode ter sido soterrado por autonomia e liberdade, mas “a liberação, na sociedade contemporânea, da antiga anomie do sujeito centrado pode também implicar não apenas a liberação da ansiedade, mas também a liberação de qualquer outro tipo de sentimento, uma vez que não há mais a presença de um ego para encarregar-se de sentir”[6]. O lado sombrio desse fenômeno é assinalado por Giddens como sendo o aumento das dependências e compulsões[7]. Porém, tal esquizofrenia (e essa expressão cunhada por Jameson talvez seja a mais representativa daquilo que se convencionou chamar de “pós-moderno) assumiu a responsabilidade pelo caminho diametralmente oposto. Segundo Harvey: “Quanto maior a efemeridade, tanto maior a necessidade de descobrir ou produzir algum tipo de verdade eterna que nela possa residir. O revivalismo religioso, que se tornou muito mais forte a partir do final dos anos 60, e a busca de autenticidade de autoridade na política (com todos os seus atavios de nacionalismo, localismo, admiração por indivíduos carismáticos e “multiformes” com sua “vontade de poder” nietzschiana) são casos pertinentes. O retorno do interesse por instituições básicas (como a família e a comunidade) e a busca de raízes históricas são indícios de procura de hábitos mais seguros e valores mais duradouros num mundo cambiante”[8].

Já dizia a filosofia chinesa: em yin há sempre yang. Assim, se a fuga dos constrangimentos do passado é tema do contemporâneo, também o é a metaficção historiográfica e essa necessidade de reescrever e reinventar as memórias, como talvez ocorra com Zoé Valdés e sua ficção pró Fulgencio Batista. Se é fato que colocamos em xeque a subversão de gênero, é igualmente válido considerar que uma transexual acalente o desejo de ser uma conservadoríssima mãe de família, como ocorre em “Sirena Selena, vestida de pena”, de Mayra Santos-Febrés. E é assim que a espanhola Lucía Etxebarría propõe “A Eva Futura” na qual estabelece conceitos sobre o que vem a ser “feminismo” hoje e encerra a edição com um questionário que inclui a esponja com que tu lavas a tua louça. Outras questões do teste de Etxebarría sugerem que tu és uma desesperada se a primeira coisa que fazes ao chegar em casa é verificar as mensagens no celular e a caixa de e-mails. É como nos sentimos acompanhados em perfeita solidão: criando subterfúgios na realidade (sic) virtual. Esse suporte da internet, que poderia conceber um livro inteiro sustentado na troca de e-mails (estou pensando em Leticia Wierzchowski), por que é chamado de literatura quando impresso num exemplar que pode ser autografado na Feira do Livro? Notemos: não é apenas o local da cultura que entra em crise, mas o próprio conceito de literatura se esfacela ante os folhetins, os blogs e suportes outros, como o Twitter, tão celebrado por Carpinejar. E se o esfarelamento do narrador e dos gêneros literários (como Altair Martins faz com maestria), se o soltar-se das amarras das teorias clássicas é uma faceta do contemporâneo, também o são os versos do jovem Astier Basilio, quando procura nas formas fixas do cordel a régua para a sua poesia. O fanatismo da fragmentação da forma não pode chegar ao extremo de gritar frente a um soneto: “isso é coisa do demônio!”. Porque essa esquizofrenia do contemporâneo abarca o híbrido: não só a literatura transnacional e desencaixada de “Amores Expressos”, mas também aquela que conscientemente pretende a cor local, os relatos rurais e as relações primárias, para fazer referência aos eixos referidos por Beatriz Rezende e tão de acordo com Harvey. Eis a liberdade promovida pela literatura, que sempre deixou dialogar as diferenças.

Acredito, sim, que as próximas gerações se lembrarão de nós como os homens que descobriram o virtual com o mesmo espanto dos que viram a primeira máquina a vapor. A internet ressignificou a cultura, a noção de tempo e as relações transpessoais, já dissemos. Mas não só isso, ela democratizou a informação e criou novos pânicos: o ficar desconectado, o de estar desinformado, o de não confiar nas fontes, o de ver, num estalar de dedos, a sua tese ruir, a difamação propagar-se, a privacidade ir pro espaço e os direitos autorais descerem pelo ralo. Seguem em nós os ecos de Auschwitz, de Hiroshima e Nagasaki, mas ultrapassamos as angústias dos homens da década de 40. Não queremos permanecer na mesma gaveta de “pós-modernidade” que eles. Esse homem médio, que no final do século XX, se deslumbrava com a internet discada tampouco nos diz respeito. Somos os primeiros a falar em “pós-humano” e não escondemos a nossa euforia e o desconserto em frente a isso tudo.

Pode ser que as próximas gerações se lembrem de nós como os leitores espantados de “Eles eram muitos cavalos”, de Luiz Ruffato, de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, de “Os verbos auxiliares do coração”, de Péter Estherházy e de toda essa escrita de esfacelamento da forma, de descentramento do narrador, de zonas de contato com outras plataformas semióticas. Mas haverá quem se recorde da escrita de Mia Couto e tentará compreender como essas angústias conviviam com referências tribais, com analfabetos, fome, guerras, amputações por causa de minas terrestres e AIDS. Nesse contemporâneo de tão poucas certezas (imagino, aqui, um risinho de escárnio de Tiago Bernardón de Oliveira, meu caro amigo historiador e marxista, que insiste em recordar: todas as épocas foram de incertezas), retomo Walter Benjamin para ponderar que é possível que tenhamos perdido parte dessa capacidade de narrar no sentido de compartilhar experiências. Gustavo Melo Czekster, em sua contribuição para o blog “Leituras do Século XXI”, disse-o muito bem: “Eu gostaria de ler uma obra literária e aprender com ela, não levar o escritor/personagem para tomar um café em casa”.  E se digo que essa capacidade foi perdida apenas em parte é porque em yin há sempre yang.

Gustavo Czekster e eu somos cúmplices nesse desconforto diante da escrita pirotécnica que se convencionou chamar de “literatura contemporânea”. Talvez com a mesma desconfiança de Monteiro Lobato em face de Anita Malfatti. Talvez com cara de Chico Buarque que ficou sem saber o que Caetano pretendia com aquela guitarra elétrica. Concordo com Gustavo que “o determinante na literatura ainda é uma história bem contada”, embora eu reconheça que é possível, com o tempo (senhor da razão; já perdoamos o clichê), que mudemos nosso conceito de “história bem contada”. Apesar de tudo isso, tenho cá meus palpites sobre o que estamos vivendo em Porto Alegre de forma geral e especificamente nesses seminários da Profª Léa Masina. Mais do que gostar, ou não, dessas leituras do século XXI, o importante é conhecê-las, entendê-las, pensar a respeito. Ou, como antes de mim, disse meu colega Gustavo Melo Czekster: “A quantidade de dúvidas é diretamente proporcional à alegria causada pelas reflexões”. Afinal, posso não querer ter uma reprodução de “Guernica” na parede da minha sala de estar, mas pensar os rumos da arte a partir de Picasso é fundamental quem se pretende culto. E estabeleço essa relação com uma alegria secreta: os inícios de século são sempre extasiantes! Nossas crises cibernéticas estão desencadeando outras vanguardas, avassaladoras como as do século que se foi. Sim, estamos na vanguarda! E entendo que isso dê medo a nós, gaúchos, que não superamos a “caixa de aço” da tradição. Não por nada brotam Centros de Tradição Gaúcha mundo afora com dogmas sobre ritmos e movimentos e prescrições de como assar um pedaço de carne. Eu mesma escrevo isso lavando mate – e ando lá pela quinta chaleirada! Além do movimento nativista, do bairrismo risível ou levado a sério, somos tendencialmente conservadores com a cultura dita “erudita”, a qual procuramos desesperadamente salvaguardar dos ataques do populacho, do novo, do efêmero. Mas junto com a literatura de tendência rural e redondinha na forma, pipocam propostas absolutamente inovadoras, como as dessa gurizada publicada pelos selos editoriais que querem mudar os ares da cultura porto-alegrense. Não sei qual nome as próximas gerações darão a esse movimento que estamos presenciando de camarote; só sei que ele é sui generis. Falarão das oficinas, dos seminários, da escrita criativa sendo levada a sério pelas universidades, das editoras que subvertem padrões, dos grupos que se reuniam para discutir o que escreviam e também o que liam e com base em que propostas teóricas interpretavam o que liam. Fascina-me essa efervescência cultural de Porto Alegre hoje. Não chego ao ponto de dizer que vivemos a Renascença das Letras, mas entendo as razões de quem estabelece tal comparação. E, francamente, não sei se ficarão para os manuais de literatura as páginas de letras sobrepostas, os trechos que parecem gráficos ou apresentações de power point. Só digo que não quero perder o bonde da história. Nem que seja para decidir, ao fim, que é preciso trotar a cavalo, redefinir fronteiras e rediscutir o que é, afinal, ser gaúcho. Nem que seja para retomar a forma fixa, a rigidez dos gêneros, os temas calcados na tradição. Nem que seja para decidir que é preciso voltar, como, aliás, também eu voltei para a minha ilusão de “casa” depois de provar o desencaixe e um presente empoeirado, impositivo e trágico. Aposto que Léa Masina esperava uma conclusão com Habermas, mas encerro este artigo citando Mano Lima: só quem saiu de casa tem pra onde voltar.

Andrea Kahmann é Licenciada em Letras pela UNISC, Mestre em Literatura Comparada pela UFRGS, foi Professora do Bacharelado em Tradução da UFPB. Atualmente, é analista do IBGE.




[1] BENJAMIN, Walter. O Narrador: observações sobre a obra de Nikolai Leskow. In: Benjamin, Horkeimer, Adorno e Habermas – Textos escolhidos. São Paulo: Abril, 1983. p. 58. Coleção Os pensadores.
[2]  LOBO, Rosana Corrêa. Amores Expressos: literatura brasileira em tempos de globalização. Disponível em: <http://www.abralic.org.br/anais/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC0672-1.pdf> Acesso em: 21 ago. 2012.
[3] Ibidem.
[4] HARVEY, David. Condição pós-moderna. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1992. p. 258.
[5] Cf. JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Tradução de Maria Elisa Cevasco. 2. ed. São Paulo: Ática, 1997. p. 42
[6] JAMESON, op. cit., p. 43.
[7] GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Tradução de Maria Luisa X. de A. Borges. 4. ed. Rio de Janeiro / São Paulo: Record, 2005.  p. 56.
[8] HARVEY, op. cit., pp. 263-264.

sábado, 25 de agosto de 2012

Algumas questões sobre A visita cruel do tempo

A editora Intrínseca criou um Guia de Leitura de A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan. Ele destaca pontos pertinentes ao livro e ainda sugere outras obras.
Pode ser o ponta pé inicial para a série de questões que a obra é capaz de suscitar.

Guia de Leitura de A visita Cruel do Tempo

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O diário de Alison Blake

Alison Blake tem doze anos e é filha de Sasha, ex-assistente do executivo da indústria fonográfica Bennie Salazar. E todos eles são personagens de A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan.
O livro é dividido em capítulos que contam pequenas histórias de personagem que, interligados, vivem suas tramas em épocas e cenários diversos.
Bom, Alison Blake é uma dessas 13 personagens e o seu capítulo é um dos mais peculiares do livro. Ao dissecar o mundo ao seu redor (relação com os pais, com o irmão e sua obsessão com as pausas das músicas, com a mãe que idealiza), Alison utiliza a velha fórmula do diário, porém abre mão do bloquinho e da caneta. Seu diário é feito através de gráficos de Power Point, programa de computador usado para criar apresentações e gráficos.
No livro, cada "tela" equivale a uma folha. Porém os leitores de Egan podem ir além e experimentar outro efeito: ler o diário de Alison Blake como ele realmente é. Vamos lá?




terça-feira, 21 de agosto de 2012

Caixa preta - 12 dias para Jennifer Egan e Paulo Kralik Angelini

"As pessoas raramente são como você espera que elas sejam, mesmo quando você já as viu por foto"


Essa é a primeira frase de Caixa preta, conto de Jennifer Egan, que desde a noite de 20 de agosto é reproduzido através do twitter da editora Intrínseca (@intrinseca). 
Veiculado pela primeira vez no perfil da revista norte-americana New Yorker, de 24 de maio a 2 de junho, o conto é resultado da provocação causada na autora pelas possibilidades do uso do Twitter.
A versão brasileira, que irá ao ar diariamente das 22h as 23h até o dia 31 de agosto, foi traduzido por Juliana Romeiro. Encerrada a participação no micro-blog, Caixa-preta será vendido em e-book, e, assim como os livros anteriores da autora, conta com a bela capa de Rafael Coutinho.

Aqui no blog, a Prof. Dra. Léa Masina propôs uma série de questões para discutir a literatura contemporânea observando os conceitos da Pós-Modernidade. Sem medo, pode-se dizer que ao utilizar o Twitter para revelar, pouco a pouco, seu texto literário, Egan não só desafiou os limites de gênero, como se apropriou de uma ferramenta popular para fazer o erudito. Essa não é a primeira vez em que topamos com elementos do pós-moderno na obra da autora. 

No aplaudido A visita cruel do tempo, tema e linguagem formam uma trama que pode ser, por um lado, decomposta em pequenos trechos, sem que nenhum deles perca o sentido. Ao mesmo tempo, a composição forma um imenso romance sobre o que é mais cruel e inevitável na vida: o Tempo (discussão recorrente da contemporaneidade). 

No dia 01 de setembro, o Prof. Dr. Paulo Kralik Angelini apresentará, no curso Leituras do Século XXI, o painel sobre Jennifer Egan e seu romance A visita cruel do tempo (Pulitzer de Ficção, National Book Critics Circle Award e do Los Angeles Times Book Prize em 2011). Será uma oportunidade para discutirmos esses e outros tópicos tão inquietantes dessa obra que, como veremos aqui no blog, não se limita as páginas de um livro.


domingo, 19 de agosto de 2012

Algumas questões para suscitar debates

Contribuição da Profa. Léa Masina, a partir de manuais teóricos que tratam a questão das literaturas de fins do século XX e início do século XXI.


Pós-modernidade é um nome genérico dado para formas culturais de um período que aparece desde os anos de 1960. Abrange certas características como reflexão, ironia e um tipo de arte que mistura o popular e o erudito.
(...)

Ela envolve a combinação aparentemente paradoxal de autoconsciência e algum tipo de fundamento histórico, porém ironizado. Por exemplo, o que foi chamado de “metaficção historiográfica” (Hutcheon) é uma ficção preocupada com seu estado de ficção, de narrativa ou de linguagem, e também fundamenta alguma realidade histórica verificável.


Os discursos pós-modernos instalam e subvertem convenções; e normalmente tratam essas contradições com ironia e paródia.  Empregando formas e expectativas tradicionais e as destruindo ao mesmo tempo, os discursos pós-modernos conseguem apontar as convenções como convenções e isto inclui estruturas ideológicas como capitalismo, patriarcado, imperialismo e mesmo humanismo.

O discurso pós-moderno também desafia os limites fixos entre os gêneros, entre os tipos de arte, entre teoria e arte, entre arte erudita e cultura de massa.

A dubiedade política estratégica é o denominador comum de muitos discursos pós-modernos e é também uma das razões para as diferenças de opinião sobre a validez e valor da pós-modernidade que problematiza temas como história, representação, subjetividade, ideologia e pobreza.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Inquietações sobre o contemporâneo


Inquietações sobre o contemporâneo

Colaboração de Gustavo Melo Czekster



Ao final da palestra do professor Ricardo Barberena, proferida na manhã do dia 04 de agosto, percebi que estava com mais dúvidas do que certezas. Mérito completo do palestrante: qualquer exposição de um assunto que desperte mais questionamentos ao invés de respostas demonstra a acuidade do tema, a sua relevância e a possibilidade de interagir com o objeto estudado. No caso, o professor Barberena falou da literatura contemporânea, ensinando sobre as características principais e as formas predominantes com que ela se apresenta. É um assunto ingrato, pois estamos vivendo em plena contemporaneidade. Falta o distanciamento crítico que somente o Tempo é capaz de fornecer, permitindo-nos ver aquilo que permanecerá e aquilo que será descartado. Para ficar em um exemplo que nos é caro, sempre podemos mencionar o texto “Kafka e seus precursores”, de Jorge Luis Borges, em que ele menciona as dezenas de escritores que eram contemporâneos à Kafka e a História literária esqueceu, mas cujos estilos e temáticas foram absorvidos para a formação do próprio escritor tcheco. Ainda que o Tempo não nos permita tal distanciamento (e as próprias noções de Tempo precisam ser revistas, pois a internet e a disseminação das informações transformaram a simultaneidade em um dos traços do mundo contemporâneo, diferenciando-o da época de Kafka e da própria época em que Borges teceu as suas reflexões), sempre é aconselhável dispor de alguns mecanismos teóricos para saber identificar o contemporâneo, em especial diante da miríade enlouquecedora de livros publicados e hoje disponíveis nas prateleiras das livrarias.



Por estar em formação, ainda se movendo em um terreno de instabilidades, o contemporâneo não significa necessariamente qualidade. Não é pelo fato dos autores atuais terem acesso às obras ditas clássicas que eles sabem o caminho que um livro deve seguir para sobreviver à passagem dos tempos. Ao contrário, os autores enfrentam a própria noção de clássico, em um processo que denota vontade de corromper a forma já estabelecida e, ao mesmo tempo, desejo de se manter fiel à tradição, naquele movimento pendular e contraditório que Harold Bloom convencionou chamar de “angústia da influência”. E não só isso: o mundo tornou-se um local muito maior. No passado, existiam as literaturas ditas periféricas, apesar do caráter pejorativo de tal conceito, quase inexistente na teoria atual depois de tantos anos de revisão, pois não podemos mais definir o que seja periferia, em especial se desconhecemos onde fica o centro. Porém, em homenagem ao aspecto histórico da teoria literária pós-colonialismo, consideravam-se periféricas as literaturas orientais, sul-americanas e africanas, ou seja, todas aquelas que destoavam do europeu e do anglo-saxônico. No mundo contemporâneo, tal divisão cartográfica não mais existe. Basta olhar as livrarias para se perceber um acúmulo de escritores fora do dito Primeiro Mundo. Como o professor Barberena muito bem frisou, não mais existem “fronteiras” a separarem um país do outro. Existem “limiares”, áreas de conurbação onde países e culturas diferentes criam um amálgama distinto das divisões geográficas.

Tais conceitos afetam o contemporâneo. Os escritores falam do mundo para o mundo. Neste aspecto, o professor Barberena afirma que a literatura virou algo constelar. No meio do universo, existem estrelas brilhando com maior ou menor intensidade, e um observador ocasional pode concentrar a sua atenção naquela que lhe parecer mais interessante, assim como a luz de estrelas próximas pode se tocar ou se afastar. Para entender este movimento, o conceito de rizoma conforme abordado por Gilles Deleuze – também trazido a lume na palestra – revela-se de suma importância, pois fica impossível ver onde começa e onde termina uma obra, assim como as suas implicações e cadinho de referências avança e retorna no Tempo, constituindo uma unidade indissolúvel da qual somos incapazes de ver a origem ou pressupor qual é o seu final. O movimento da literatura contemporânea representaria tanto o todo universal (uma constelação) como uma singularidade particular (um rizoma). No meio destes dois extremos, está a obra literária.

No afã de criar normas mínimas para identificação do contemporâneo, o professor Barberena listou nove características que, em maior ou menor grau, aparecem na literatura atual. Elas seriam: 1) fragmentação; 2) hibridez; 3) intertextualidade; 4) auto ficção; 5) colagem; 6) transnacionalidade; 7) da obra ao texto; 8) História como artefato narrativo e 9) a Literatura como liberdade. Em texto anterior colocado neste blog, todos estes requisitos foram muito bem analisados. Chamou minha atenção um detalhe comum a todos os traços desta contemporaneidade: eles dizem respeito à forma do texto, não ao seu conteúdo. Quais seriam os temas contemporâneos? Existe algum tema comum a todas as obras? Ou, melhor ainda, algum tema que nunca seja abordado? A classificação sugerida pela professora Beatriz Rezende, conforme exposta na palestra, trata de cinco características das obras contemporâneas. No entanto, elas são imprecisas o suficiente para que qualquer obra se encaixe no seu interior e, assim como a professora Léa Masina externou durante a palestra, prefiro a classificação feita pelo professor Ricardo Barberena.
A escolha majoritária da subversão da forma como um dos traços da literatura contemporânea me fez refletir. Particularmente, sempre achei a deturpação da forma do texto literário mais pirotecnia do que método, uma forma de esconder a singeleza do assunto por meio da brincadeira com o meio físico. Se pensarmos bem, literatura é feita de palavras e de ideias (dizem que também envolve trabalho e suor, mas ficarei no campo pragmático). Brincar com o formato do livro, com a textura da página, com a disposição das letras, com a inserção de elementos alienígenas a distrair da história me parece tão excitante quanto aqueles livros infantis que, ao abrir as folhas, revelam um castelinho. Um livro que precisa chamar a atenção brincando com o próprio formato pode ser considerado literatura ou devemos pensar no caráter lúdico da experiência? Não existem respostas fáceis para tal indagação. No entanto, a julgar pelas obras referidas como exemplos na palestra, um dos principais traços da prosa contemporânea é a brincadeira com a forma, o livro se tornando um item a ser consumido como qualquer outro objeto perecível. Aliás, este é um movimento experimentado por todos os campos artísticos: a obra transformando-se em um objeto de consumo ou, como disse o professor Barberena em uma afirmativa que assombrou minha cabeça por dias, “o livro como uma instalação artística”.

Em tempos recentes, lendo obras contemporâneas, constatei que um dos fatores que mais me desagradava era a predominância do narrador de primeira pessoa ou de narrativas voltadas para o ego de um personagem, o qual, era óbvio, não passava do próprio autor. Estava sentindo falta das narrativas despersonalizadas, ou na terceira pessoa, ou com um narrador onisciente, ou um narrador neutro, ou qualquer tipo de narração que não tentasse me doutrinar com o seu ponto de vista. Eu gostaria de ler uma obra literária e aprender com ela, não levar o escritor/personagem para tomar um café em casa. É um grande exercício de egocentrismo tentar dividir a própria personalidade no meio dos exemplares de um livro e entrar na intimidade do leitor. A influência maior deste estilo de literatura vem do fato da contemporaneidade estar vinculada como nunca à própria noção do eu e do egoísmo da personalidade, exemplificado pelos blogs que infestam a internet e até mesmo o new journalism, em que o jornalista deixa de ser veículo para a condução da história e passa a ser partícipe. Contudo, lendo uma biografia de Michel de Montaigne, constatei que “Os ensaios”, escrito no século XVI, já era uma narrativa ligada ao eu e, ainda assim, tornou-se literatura e sobreviveu aos séculos. Ao que tudo indica, escrever exclusivamente sobre si mesmo não é um traço determinante do mundo contemporâneo. Desde o início dos tempos, desde o primeiro homem que desenhou a si mesmo caçando um mamute, a literatura é um grande exercício da individualidade do artista. Neste caso, o que diferenciaria as obras literárias seria a qualidade da visão do mundo proposta no seu interior. E isto é algo que escapa do contemporâneo.

Retornando à palestra, o professor Barberena afirmou que o importante seria a validade estética do texto literário. Considerando-se o conceito grego clássico, a estética é o estudo da natureza do belo e da composição da arte como veículo para expor e disseminar a beleza no seu conceito mais distendido, que pode inclusive abarcar a feiura, o grotesco e o ridículo. Podemos dividir a análise da beleza de uma obra literária em dois aspectos: a forma e o conteúdo. Pelo o que observei na palestra, a literatura contemporânea afirma que a beleza estética está mais vinculada à forma com que o livro se apresenta e à sua capacidade de disseminar-se em razão de tal formato do que ao conteúdo nele exposto. No entanto, de acordo com o ensaio “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, de Walter Benjamin, aquilo que determina a permanência da obra literária seria o seu conteúdo, que também é uma forma de apreciação estética. Neste sentido, não pude deixar de perceber que o conteúdo parece estar dissociado da forma.

Entre outras, algumas das características apontadas pelo professor Barberena de uma obra literária contemporânea soaram estranhas: a criação de listas arbitrárias e a repetição exaustiva de palavras e construções linguísticas. Ainda que seja um traço pós-moderno, a colocação de listas dentro de um texto literário, se for desmotivada, parece exatamente aquilo que é: um jogo insosso de palavras para criar um efeito mecânico, não estético, e aludirmos à “mecanização das relações humanas” ou coisa que o valha. Não me atrai muito; como diria Calvino na introdução de “Por que ler os clássicos”, quando se percebem as estruturas em que o texto veio a surgir, a magia da construção desaparece. Com relação à repetição de palavras, de construções linguísticas e de situações, parece mais um jogo utilizado para enfrentar a velocidade da leitura e fixar pontos na cabeça do leitor por repetição, mais ou menos como uma “decoreba” feita no colégio. Um papagaio também repete palavras, e isto não o torna mais contemporâneo do que aqueles que lhe antecederam.

Os dois pontos destacados pelo professor Barberena caracterizam a produção literária contemporânea. A literatura é tratada como um jogo entre autor e leitor, ao invés da transmissão de uma história. No entanto, como o palestrante bem destacou, o contemporâneo é muito mais do que isto, escapando de definições cômodas, algo que traduz um pouco mais de tranquilidade para aqueles que só querem ler uma boa história sem se sentirem ofendidos pela deficiência intencional da sua construção para agradar ao público. Para este tipo de leitura, o professor destacou o conceito de paralaxe, algo trazido da astronomia para dentro dos estudos literários, dizendo que a posição do observador da literatura contemporânea está em constante movimento. O que agrada um leitor pode desagradar o outro, assim como a própria noção de contemporâneo pode modificar com a passagem do tempo e a mudança do público. A paralaxe desestabiliza a teoria. É um pensamento confortador; talvez as minhas inquietações sobre o contemporâneo se tornem despropositadas. Talvez apontar características da literatura contemporânea seja uma forma de entender os fenômenos sociais e como eles se refletem em uma expressão artística. Ou, talvez, ser contemporâneo também signifique ser o fantasma de um Natal passado. A quantidade de dúvidas é diretamente proporcional à alegria causada pelas reflexões.

Ainda acredito no caráter de imanência das obras literárias. Ainda acredito que o diálogo intermitente com o passado é aquilo que forma o contemporâneo, por maior que seja o pastiche e o desejo de renegar as obras clássicas. Recordando o belo “Introdução ao Método de Leonardo da Vinci” de Paul Valéry, citado en passant pelo professor Barberena, transcrevo um trecho: “Internamente há um drama. Drama, aventuras, agitações, todas as palavras dessa espécie podem ser empregadas, contanto que sejam numerosas e corrigidas uma pela outra. Esse drama se perde na maior parte das vezes, exatamente como as peças de Menandro. Contudo, guardamos os manuscritos de Leonardo e as brilhantes notas de Pascal. Esses fragmentos nos forçam a interrogá-los. Fazem-nos adivinhar através de que sobressaltos de pensamentos, de que extravagantes introduções dos acontecimentos humanos e das sensações contínuas, depois de que imensos minutos de fraqueza mostraram-se aos homens as sombras de suas obras futuras, os fantasmas que precedem. Sem recorrer a exemplos tão grandes que acarretem o perigo dos erros da exceção, basta observar alguém que se acredite sozinho e abandone-se; quem recua diante de uma ideia; quem a segura; quem nega, sorri ou contrai-se; e imita a estranha situação de sua própria diversidade. Os loucos se entregam a ela diante de todo o mundo.” Na gênese de cada obra, existe o reflexo dos fantasmas do passado. Quanto mais o autor tenta recusar esta sombra, mais a sua obra se afasta dos grandes valores. Ao contrário do que parece ser uma tendência do contemporâneo, o importante não é a forma nem a metalinguagem ou a inserção do autor como personagem da própria história narrada. O determinante na literatura ainda é uma história bem contada. Assim como Valéry descrevendo a solidão das ideias de Da Vinci, acredito que, para sobreviver à passagem dos anos, o contemporâneo precisa encontrar refúgio naquilo que é mais essencial a qualquer ser humano: a voz interior que precisa ser falada e atravessar os séculos. Ainda precisamos ver o homem por trás da obra, não a forma que ele escolheu para expor as suas inquietações, e sim a sua própria essência. E isto ocorre nos momentos de silêncio, nos angustiantes segundos em que o artista fraqueja, na sua própria falibilidade. Na capacidade de passar o eterno para dentro de um texto. Este é o teste que a literatura contemporânea ainda deverá enfrentar. Contudo, como a palestra do professor Barberena ensinou, uma série básica de análises de requisitos será sempre essencial para separarmos o joio do trigo, a permanência da volubilidade. Só nos resta esperar o julgamento do Tempo. Para encerrar com um clichê tão desprezado nos meios literários, mas que sempre atrai o grande público, o Tempo ainda é o senhor da razão.
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Gustavo Melo Czekster é Mestre em Literatura Comparada pela UFRGS e escritor, autor do livro "O homem despedaçado" (editora Dublinense).